quinta-feira, 25 de novembro de 2010

All my Loving to Paul McCartney

Close your eyes and I’ll kiss you
Tomorrow I‘ll miss you
Remember I’ll always be true…
Quando ouvi esses versos no meio da gritaria, minha ficha caiu. Era ele mesmo que estava ali, na minha frente, cantando e tocando seu contrabaixo ao contrário. Com as mesmas botinas de salto quadrado, o mesmo terninho (com o toque de um roxo ousado, é verdade), o mesmo cabelo, os mesmos olhos, a mesma voz inebriante. Era Paul McCartney tocando pra mim. Era o meu dream came true em pleno Beira Rio, numa noite quente de novembro. A Day in The Life.

Não me lembro quando conheci Beatles. Como lá em casa sempre se ouviu muita música, eram LPs e fitas que rodavam de tudo, inclusive eles. Sei bem, no entanto, quando comecei a me apaixonar. Eu tinha 12, 13 anos. Comprava os discos com a mesada que ganhava trabalhando na farmácia com meu pai, nas férias. Enquanto a galera da escola escutava sei lá o quê, lá estava eu, vidrada na velharia. Para entender o que cantavam, quis por que quis estudar inglês. O primeiro livrinho de cifras pra tocar violão, óbvio, foi um especial dos caras. No meu aniversário de 15 anos (na época se fazia 15 anos...), a trilha sonora foi uma só.

- Pai, diz pro cara do som que tem que tocar Beatles. De qualquer maneira!

No momento mais animado da festa, Twist and Shout a todo volume. No vídeo que reproduzia o evento, The Long and Winding Road me acompanhava em câmera lenta.

Entre minhas paixões juvenis, Paul McCartney foi a primeira. Ok, eu sabia que ele não era nenhum Tom Cruise, mas não podia deixar de suspirar pela voz que cantava Till There Was You repetidas vezes no toca-disco do meu quarto. Admirava John, simpatizava com George, Ringo estava ali, tudo bem, mas era Paul que tinha All My Loving. Desde sempre, foi ele o meu beatle favorito.

Na adolescência, outros amores me conquistaram. Guns‘n Roses, U2, rock brasileiro, folclore latino, tudo se misturava aos hormônios dos meus 17 anos. Mas nunca houve caso de passar batida por uma música dos Beatles. O coração sempre disparou.

Ao virar adulta e poder planejar o que fazer com os parcos trocados que o ofício de jornalista me proporciona, tinha um propósito: preciso ver Paul McCartney. Quando vier ao Brasil enfrento o Maracanã lotado. Se não vier, bem, um dia economizo e Londres que me aguarde. Felizmente, não precisou. Ele veio até Porto Alegre me encontrar.

E eis que assim chegou o momento sublime que vivi no último dia 7. Foram sete horas de fila, calor escaldante, cansaço. Mas nada poderia diminuir um milímetro da emoção de ver o maior músico de todos os tempos subir naquele palco, lindo como nos meus sonhos, para tocar, falar português – e gauchês!, fazer piadinhas, dançar e arrebatar 52 mil corações.

O responsável pela minha beatlemania estava lá, de binóculo em punho, ao meu lado na arquibancada. Depois de muito argumento, convenci meu pai a ir junto. Nada mais justo do que dividir esse momento com quem, afinal de contas, me apresentou o astro daquele espetáculo. Ele não dançou, não gritou, não chorou como eu. Mas dava pra ver o sorriso quando a banda soltava as primeiras notas de alguma velha canção, que lhe embalou a juventude. Day Tripper, um balanço tímido de cabeça. Paperback Writer, uma embaladinha no corpo. Ao refrão de Hey Jude nem ele resistiu. Só ele sabe das lembranças guardadas naquele na-na-na...

Para a noite ficar mais do que perfeita, faltaram apenas as pessoas que gostariam tanto quanto eu de estar ali. Minha irmã, a quem transmiti o vírus na infância e que só pode compartilhar Back in the USSR pelo telefone enquanto voltava pra casa de ônibus. Meu marido, que comprou o ingresso mas, por ser tão bacana, mandou o sogro. Minha amiga Zeneida, tão fanática quanto eu – não sei quem contaminou quem neste caso. Fernanda, minha prima, com quem dançava até cansar nas festas da família. Minha mãe...

Entre as lágrimas pela presença e os vazios das ausências em um estádio lotado, o show chegou ao fim. Hoje, mergulhada nos meus prazos e compromissos, ainda consigo ouvir a voz dele... Escrevi essa música para minha gatinha Linda, mas, esta noite, ela é para todos os namorados... and when I go away I know my heart can stay with my love... ainda vejo o vento balançando de leve os seus cabelos, I give her all my love, that’s all I do... e penso que virou realidade tudo o que um dia eu cantei... and hope that my dreams will come true.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Adoráveis ginetes


Descobrir o novo e deslumbrar-se com ele é o que torna o jornalismo a melhor profissão. Uma reportagem pode abrir os olhos da gente, nos fazer enxergar um pouco além do véu da rotina que costuma cobrir nosso olhar.
Um exemplo é uma matéria publicada – coincidência – no dia do meu aniversário, no Caderno Donna, de Zero Hora. Comecei simplesmente querendo fazer o perfil da menina que seria uma das poucas mulheres a chegar na final do Freio de Ouro, a maior competição do cavalo crioulo. No curso da reportagem, descobri um mundo novo, uma realidade em que a gineteada também é coisa de mulher. E que a delicadeza feminina pode, sim, dominar um dos animais mais fortes e enigmáticos.
Ao fazer a matéria, descobri a menina sonhadora que vive no corpo da ginete Carolina Zagonel. Descobri a simplicidade de Soledad Ferreira, a uruguaia que há anos participa do Freio de Ouro, sem alarde. E fui invadida pela paixão da Eliana, a primeira de todas, a pioneira na final, que disputou com os melhores quando tinha apenas 16 anos.
Por fim, me dei conta de como são incríveis essas mulheres. Essas e tantas outras. Com tristeza percebi que nunca poderei sentir a mesma emoção que elas. Depois de um tombo, me assombra a ideia de montar o mais manso dos cavalos. Felizmente, sou jornalista. Pude, ainda que de forma emprestada, compartilhar com elas toda a emoção de viver ou ter vivido o sonho do Freio de Ouro.
Na foto, feita pela equipe de divulgação da ABCCC, Carolina monta Amora Maufer, no dia da sua classificação para a final do Freio de Ouro. Aqui está a reportagem completa.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Vamo protestar!




Passar o dia conversando com gente, ouvindo, aprendendo e até curtindo a música feita pelo autêntico trovador gaúcho para o protesto. Eita matéria boa!

O resultado é a reportagem publicada hoje na editoria de Economia de Zero Hora. Aqui vai o texto original, sem edição. A foto é da Assessoria de Imprensa da Farsul.


O campo se une na cidade

Eles viajaram por quase quatro horas para protestar. Não estão muito acostumados com manifestações, assinatura de documentos, discursos de políticos, promessas e cobranças. Em suas propriedades, no interior de Sobradinho, Ivo Busatto e Elias Puntel se ocupam de fazer o que sabem: plantar soja, milho, feijão e fumo. Mas, nos últimos anos, os sucessivos prejuízos com a lavoura os fizeram pensar que precisavam ser ouvidos. Assim foram parar entre centenas de produtores rurais de todos os tamanhos, culturas e regiões do Estado, que se reuniram ontem na Praça Saint Pastous, diante da sede da Farsul, para comunicar sua insatisfação.


Ao lado de grandes do agronegócio gaúcho, como Armando Chaves Garcia de Garcia, pecuarista e produtor de arroz e soja, ou Jorge Rodrigues, do leite, os dois vieram à capital pedir o que consideram essencial e urgente para a manutenção da atividade no campo: seguro para cobrir os prejuízos provocados pelas mudanças climáticas, como estiagem de 2005; mais renda, o que se obtém com insumos mais baratos e melhores preços de venda da produção; e solução para o passivo já acumulado pelos produtores, que estão endividados e não conseguem quitar os débitos.


Busatto, proprietário de 80 hectares, deve R$ 200 mil ao Banco do Brasil desde 2004. Para rolar a dívida, já vendeu máquinas e contraiu novos empréstimos. Puntel, dono de uma pequena propriedade de 14 hectares, deve os mesmos R$ 200 mil, fruto da compra de um trator e dos sucessivos financiamentos que precisou contrair para adquirir insumos. Em defesa deles, entidades como Federarroz, Fecoagro, Aprosoja e Fetag se uniram ao Sistema Farsul para organizar o protesto que ocorreu no asfalto da capital, mas em tudo lembrou a realidade rural.


Durante a manhã, o chimarrão quente espantou o frio e abriu o apetite enquanto lideranças do setor, políticos e candidatos faziam discursos. Quem concorre a um cargo eletivo no próximo pleito se comprometeu com a causa de Busatto, Puntel e todos os outros que estavam ali desde cedo. Quem lidera entidades de classe, alertou para a importância do voto, instrumento capaz de mudar, por meio da política, a situação do campo.


- O mesmo homem do campo que sustenta a economia brasileira não consegue cumprir seus compromissos, porque não há renda para o produtor, independente do tamanho. Devemos corrigir essa situação com o voto - alertou Carlos Sperotto, presidente da Farsul.


Depois do carreteiro saboreado em plena praça, multidão e carro de som tomaram uma das pistas da Avenida Loureiro da Silva, em direção ao prédio do Ministério da Agricultura. Ivan Busatto e Elias Puntel caminharam ao lado de gente que nem conheciam, na esperança de obter, ao fim da marcha, alguma garantia. Busatto precisa mandar a filha mais velha para a faculdade, mas não vê jeito. Em 2003, a prestação da colheitadeira lhe custava 700 sacas de soja. Hoje, a máquina lhe toma, por ano, 1,1 mil sacas - o que não deixa folga no orçamento. Já Puntel não quer entregar a terra recém adquirida para cobrir o que deve ao banco. A safra deveria ser suficiente para as prestações e o sustento da família. No entanto, o preço baixo das commodities o obriga a escolher o que pagar.


O superintendente do Ministério da Agricultura no Rio Grande do Sul, Francisco Signor, recebeu o documento assinado durante a manifestação e falou à multidão que se aglomerou na porta do prédio, garantindo o envio da carta ao ministro da pasta, à Casa Civil e à Presidência da República. Será o primeiro passo para nacionalizar o movimento, como querem as entidades organizadoras.


- Foi uma manifestação ordeira e significativa, que representa uma mobilização que não termina hoje. Não é aceitável que tenhamos cada vez mais produção e menos renda no campo - ressaltou Signor.


Ainda na tarde de ontem, a direção da Farsul reuniu-se com o Banrisul, para pleitear prorrogação da dívida dos produtores sem a necessidade de autorização do Banco Central. Também foi marcada para o próximo dia 17 uma reunião na Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), na qual será oficializado um documento nacional com reivindicações de todos os estdos.


Depois disso, fim de protesto. Grandes e pequenos, rurais e urbanos, todos foram para casa. Um ônibus fretado em Sobradinho aguardava por Ivo Busatto e Elias Puntel no estacionamento do Parque da Harmonia. Enquanto as garantias firmadas ontem não viram realidade, eles voltam ao campo para fazer o que realmente sabem: produzir.

domingo, 1 de agosto de 2010

Histórias e rendas nas fortalezas de Floripa







Uma reportagem é sempre um desconhecido. Não importa quanta pesquisa e produção envolveu a matéria. Quando os olhos, lentes e blocos se abrem para uma história, o novo está ali, pra surpreender a gente.

Este texto é parte de uma reportagem produzida em dezembro de 2009, sobre as fortalezas da Ilha de Santa Catarina. No meio de tantas pedras que contam histórias, encontramos uma história viva.

Este perfil foi publicado na Revista Donna, do Jornal Zero Hora deste domingo, dia 1 de agosto. As fotos são do Patrick Rodrigues.



Olê mulher rendeira...

O sol da tarde brilha a pico e um ventinho fresco se intromete pela janela entreaberta da Fortaleza de São José da Ponta Grossa. É um bálsamo no dia abafado de dezembro na Praia do Forte, no norte de Florianópolis. As paredes de pedra erguidas para proteger a Ilha do Desterro das invasões espanholas guardam uma figura singular. Acomodada em um cantinho onde a brisa é quase vento, Neli da Luz não sente calor, tédio ou cansaço. Apenas tece. Os dedos nodosos vão pra lá e pra cá, bilros pra todo lado e pronto. Assim, sem alarde, a rendeira acabou mais uma pequena obra de arte feita de fios presos a pedaços de madeira.
Desde que o antigo forte português foi restaurado pela Universidade Federal de Santa Catarina, há 18 anos, Neli senta ao lado da mesma janela, emaranhando fios e fazendo renda. Sobre a almofada, a rendeira de 56 anos tece toalhas, colchas, cobertas de mesa. Tece a trama da sua vida em forma de flores, folhas, pétalas, lágrimas. E com seu sotaque de manezinha, descreve o orgulho de ser o que é. "Sou rendeira desde os sete anos, nunca tive outra profissão".
Moradora da praia de Canasvieiras, Neli passa mais de uma hora por dia dentro dos ônibus que a levam para a Fortaleza, onde produz e expõe seu trabalho. Não tem vínculo empregatício com ninguém, não recebe salário, não tem carteira assinada. Mas agradece a oportunidade de estar ali, no patrimônio histórico visitado por tanta gente. "Ah, minha filha, quando é verão isso aqui enche de gente na minha volta. Ficam todos loucos pra saber como eu faço a renda. Daí eu explico como se faz, mostro as peças prontas. De vez em quando vendo alguma coisa também. Até canto a música das rendeiras, conhece?

Olê mulher rendeira, olê mulher rendá
Eu te ensino a fazer renda, tu me ensina a namorá"

A pele clarinha e os olhos muito azuis revelam a origem de Neli e sua renda. Nascida e criada na Praia do Forte, ela descende dos açorianos que trouxeram para o Litoral Catarinense a arte que hoje executa com maestria. Em janeiro de 1748 desembarcaram 473 pessoas na localidade do Ribeirão da Ilha. Em pouco tempo, espalharam-se pela costa de águas cristalinas e pesca farta. Além de cuidar dos filhos, da pequena roça de subsistência e da casa, as mulheres ainda ajudavam os maridos na pesca. Quando não iam elas próprias para o mar, auxiliavam no conserto e fabricação de redes. No tempo livre que sobrava _ se é que é possível imaginar algum tempo livre depois de tudo isso _ elas exercitavam a arte usada no país de seus antepassados para enfeitar as roupas e mesas da nobreza e do clero.
Embuída de uma inexplicável energia, ela cumpre a mesma rotina de suas tataravós _ com exceção da roça. O marido, Celso, é pescador e servente de pedreiro. Foi ajudando o companheiro a pescar e a virar massa e fazendo renda no tempo que sobrava que ela trouxe ao mundo sete filhos. A herança tramada na renda, no entanto, vai morrer com Neli.
"As duas filhas menores não quiseram aprender. A mais velha é habilidosa, mas preferiu descascar ostra. Dá mais dinheiro", lamenta.
Neli acredita que a facilidade de encontrar emprego remunerado está fazendo a nova geração perder o interesse pela habilidade de suas mães e avós. "As rendeiras estão ficando velhas e doentes. Quando não é a coluna a incomodar, é a vista que não funciona direito. Eu vou fazer renda enquanto enxergar. Mas só enquanto enxergar", diz Neli.
Quando mais uma velha rendeira para, uma filha, neta, sobrinha, vizinha ou amiga precisa tomar o seu lugar. No entanto, a arte dos bilros é aprendida aos poucos, no curso de uma convivência longeva. E o tempo e o interesse das jovens já não é mais o mesmo que Neli tinha quando observava sua mãe sentada à almofada, rendando.
Turistas acostumados a passear pela Avenida das Rendeiras, em Floripa, veem as pequenas casinhas com portas estreitas, de cujos marcos pendem toalhas e colchas, e imaginam que o costume está seguro entre as mulheres da Lagoa da Conceição. Neli, no entanto, alerta que aquilo é só aparência. Sem jovens rendeiras, a tradição está condenada.
A prefeitura de Florianópolis assinou, recentemente, um termo de cooperação com o Ministério da Cultura para transformar o Casarão da Lagoa no Centro de Referência da Mulher Rendeira. Depois de reformado, o prédio abrigará exposições, loja, biblioteca, centro museográfico e oficinas, para garantir o repasse desse costume.
Enquanto a capital catarinense não colhe os frutos de seu empreendimento em favor da tradição rendeira, Neli e suas pares fazem o que lhes cabe na manutenção desse legado: rendam. Nos meses de inverno, quando os turistas rareiam, Neli permanece ali, sentada na janela da Fortaleza, tecendo o estoque do próximo verão. Quando precisa ajudar o marido, bate seus bilros à noite, enquanto todos dormem. Quando a maré lhe traz amarguras, como a morte de dois filhos, lágrimas de linha fina ornam mais uma toalha. Os momentos de felicidade, como o nascimento dos seis netos, vêm bordados com flores nas roupas de bebê.
Neli da Luz é rendeira, é mãe, é mulher, é feliz. Sorri fácil e solta o verbo sem desgrudar um minuto dos bilros. Estar ali, "naquele lugar histórico e lindo", ser paparicada por visitantes, vender seu trabalho, conversar com as companheiras de ônibus, ajudar os filhos, preparar aquela estopa de peixe com o tempero que o marido adora. É essa a vida que Neli da Luz trama na simplicidade de seus fios, na delicadeza de seus guardanapos e de seu cotidiano.

sábado, 24 de abril de 2010

Revendo o invisível




Verão de 2007. Eu e o repórter-fotográfico Patrick Rodrigues voltávamos de um passeio pela Praia Brava, em Itajaí, onde produzimos uma matéria para a Revista de Verão do Jornal de Santa Catarina. Como de costume, passamos no mercado público, no centro da cidade, para tomar um café e ver o entra-e-sai de barcos e navios no Rio Itajaí-Açu, ali em frente. Foi quando vimos o gigantesco transatlântico recém chegado. Impossível não enxergar um negócio daquele tamanho. E, por sorte ou acaso, vimos também o homem invisível. E, mais incrível ainda, conversamos com ele.
O texto a seguir foi publicado no site da Revista Caros Amigos em janeiro de 2007.





O invisível que dorme no segundo andar

Texto: Patrícia Lima
Fotos: Patrick Rodrigues


O nome dele é Israel Moraes. Ou seria Ismael Soares? Ou talvez Mário Isauro? Isaltino Moreira? O nome dele não importa. Ele é um homem invisível. Mas é o único que dorme no segundo andar. De sua cama, consegue ver melhor os turistas que descem do transatlântico recém atracado no píer turístico. Mas não pode ficar ali por muito tempo observando o luxo que cruza os mares. Bastam R$ 5,00 para que sua vida, sua história e o cheiro que exala de seu corpo sujo desapareçam da vista dos turistas que descem do navio. Israel Moraes (ou seja qual for o nome dele) tem 40 anos e, atualmente, vive nos alicerces de uma construção abandonada de três andares, ao lado do píer turístico de Itajaí, em Santa Catarina. Divide o lar com outros seis mendigos, que se protegem da chuva no teto improvisado, e tem o privilégio de ser o único a dormir no andar de cima das ruínas. É que os outros estão sempre muito chapados para subir. Ninguém encrenca muito com a presença deles ali, não são violentos. Só bebem demais, todos os dias. O problema começa quando chegam os gigantescos transatlânticos. Israel conta que, em dezembro, quando o navio Insígnia chegou, a Polícia Federal logo apareceu para atrapalhar a diversão. Antes que os 800 turistas começacem a descer, o policial teria oferecido R$ 5,00 para que eles saíssem da construção. Não era bom que aparececem assim, sem mais nem menos, diante dos ricaços. Tinham que permanecer invisíveis.
A possibilidade de ver os endinheirados saindo do navio era boa, mas os R$ 5,00 do policial pareceram igualmente interessantes. Foram embora. Mas não por muito tempo. Não para muito longe.
Israel não podia perder a oportunidade de abordar uns gringos para arranjar alguns trocados para a pinga. Ganhou dez euros de um turista e pensou em rasgar o dinheiro. "Jurei que o cara tava de sacanagem, achei que o dinheiro era falso. Nunca tinha visto aquilo". Um taxista viu o dinheiro e trocou a nota por R$ 20,00. Bom negócio. Duas garrafas plásticas de pinga e mais uns trocos no bolso para o lanche. Ótimo negócio.
Assim que a televisão filmou a chegada dos ricos a Itajaí, Israel e seus amigos voltaram ao posto. Chovia e a rua era pouco acolhedora, mesmo para quem tinha o corpo aquecido pelo álcool. Enquanto os turistas compram no centro chamado de histórico, Israel sorve com prazer a cachaça que comprou com os euros dos gringos. A língua fica cada vez mais solta. A história começa a saltar dos lábios ansiosos. Ele deixa de lado a habitual conformidade com sua condição de homem invisível. Quer aparecer, quer contar sua vida.

Asas de álcool
Natural de Taguatinga e filho de um funcionário aposentado da Petrobras, Israel não fala com a família há cinco anos. No Natal sente saudade, daquelas que fazem doer o tórax. Mas a experiência ensina. Para evitar as dores, compra cachaça extra e "chapa o coco", para evitar a sofreguidão da nostalgia. Cozinheiro profissional, é capaz de preparar qualquer prato para a ceia natalina. Era. "Hoje acho que não tem mais jeito pra mim. Não consigo parar de beber".
O alcoolismo deu asas ao homem que queria conhecer o mundo, livre de compromissos e de roteiros turísticos. O dinheiro dos empregos temporários - sempre abreviados pelos sumiços provocados pela cachaça - serviu para que ele conhecesse todas as capitais brasileiras. Já viveu em vários albergues e garante que o serviço de assistência social em Itajaí é péssimo. "Os caras oferecem um dia de albergue. O que é isso? Quem consegue se erguer em um dia?" Antes de abandonar tudo, Israel bem que tentou vencer o vício. Trabalhou, fez um filho em Fortaleza, aprendeu em um curso a arte de cozinhar e de decorar mesas com esculturas de legumes. Mas o chamado do mundo era mais forte. Quando percebeu que perderia todas para a cachaça, decidiu abandonar tudo e seguir viagem, sem sequer saber para onde. E, de tanto perambular, chegou a Itajaí, de onde pode partir a qualquer momento.
No meio da conversa animada, ele relembra os tempos em que trabalhou em Porto Alegre, "melhor capital brasileira para um morador de rua". Também lembra que já recusou propostas para trabalhar em transatlânticos como aquele que estava atracado a alguns metros da construção. "Não dava, né. Como ia beber em alto mar? Iam me jogar pra fora do navio...".

Ele tem sede de quê?
Normalmente os porres de Israel não têm um motivo específico. Ocorrem simplesmente pela vontade de sentir a cachaça se misturando à saliva e ao sangue. As vezes servem para matar alguma saudade ou para esquecer o que ele mesmo diz ser o seu fim-da-linha. Mas não no dia em que o Insígnia atracou em Itajaí. Diante daquele enorme cargueiro de gente, o morador de rua tinha o quê comemorar: a visita de um navio tão bonito, o euro, os R$ 5,00, os turistas que conseguiram vê-lo. "Ô, hoje eu tô feliz. Foi um dia bem divertido". Na manhã seguinte, o Insígnia arrecadou os 800 turistas e zarpou, majestoso, nas águas do rio em que Israel dá uma mijadinha quase todos os dias. A turma da construção terá mais um período de distância da Polícia Federal, já que a tripulação dos navios de contêineres nem se importa se há mendigos nos portos comerciais. Mas a maré de transatlânticos no Litoral Catarinense está apenas começando. O brilho nos olhos e o riso fácil da turma do Israel indica que os euros, os R$ 5,00, a cachaça abundante e um mar de olhares curiosos estão por vir, para quebrar a monotonia de uma vida invisível.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Princesinha aos 102




As unhas pintadas com esmalte cor-de-rosa claro arrematam uma mão de dedinhos tortos e pele manchada. Os lábios cintilam com a cor delicada de um batom que se destaca no rosto opaco. Os cabelos exibem um branco vibrante, que ilumina toda a pequena figura de pouco mais de um metro e meio que entra na sala com passos arrastados e lentos. Ela não tem pressa. Mas quando finalmente chega, seu perfume de velhinha invade a sala, sua estampa meiga desarma, seu sorriso tímido conquista. E, finalmente, sua idade impressiona. Parece 75, 80 até, mas lá se vão 102.
Ela é Jurema Chiappetta Verney, moradora da Rua Tiradentes, no Centro de Lavras do Sul, cidade de oito mil habitantes no coração da Campanha Gaúcha. Dentro de um enorme casarão erguido no início do século 20, vive a senhora mais idosa do local. Ao saber de sua existência, fui logo construindo minhas suposições e imaginando que linda reportagem faria sobre uma mulher criada no meio rural, avessa às modernidades, que venceu os anos sem ser tocada pelo progresso. Engano. Dona Jurema me desmontou. E me reconstruiu.
A vida desta mulher em nada lembra a mini-série A Casa das Sete Mulheres, tampouco nos remete à tradição rural, das matriarcas, das avós que recebiam pilhas de netos com os tachos cheios de doces. Mesmo assim, sua trajetória se confunde com a história de Lavras do Sul.
Filha de um imigrante italiano e de uma herdeira de fazendeiros gaúchos, ela foi a primeira dos muitos irmãos a nascer no casarão erguido pelo pai – o tal casarão da rua Tiradentes, que ainda hoje ocupa um quarteirão inteiro. A família estabeleceu-se ali para viver do comércio. Aqueles eram dias de prosperidade, já que a cidade vivia o auge da exploração do ouro. A extração começou por volta de 1790, quando as primeiras pepitas foram descobertas nas margens de um arroio. Nesse tempo, o território ainda pertencia às cidades de Caçapava do Sul e Bagé.
A notícia do ouro logo se espalhou, trazendo gente de todos os cantos e fazendo crescer ali uma povoação com atividade econômica intensa. Em 1882, Lavras do Sul (o nome lavras significa terreno ou lote destinado à mineração) separou-se de Caçapava. Foi nessa economia fervilhante que o pai de Dona Jurema se estabeleceu como comerciante. “Ele tinha uma espécie de supermercado, vendia de tudo. E a moeda mais comum não era dinheiro, não. Era ouro”, relembra.
A menina cresceu vendo o pai pesar as pepitas na balança de precisão que fazia as vezes de caixa registradora. No lugar de ficar em casa com as tias aprendendo a bordar, ela preparava um lanche com “gasosa” e sanduíches e ia com a família observar os trabalhadores do garimpo aos finais de semana. A educação começou em Lavras, na escola municipal, mas logo migrou para o internato das Irmãs de São José, em Pelotas, o que havia de melhor em termos de ensino para moças na sua época. Quando ia visitar a família, voltava com pequenos pedacinhos de ouro para presentear as melhores amigas pelotenses.
Ao casar, não virou uma dona de casa, simplesmente. Mudou-se para Porto Alegre com o marido e foi nomeada professora pelo então governador Flores da Cunha. Alfabetizou uma legião de portoalegrenses e chegou a ser diretora de escola. Até hoje fala da capital com propriedade, apontando precisamente locais, nomes de ruas, pessoas que conheceu, que ensinou a ler. “Nunca entrei na sala de aula com preguiça”, orgulha-se.
Os anos passaram, mas Dona Jurema ainda conserva, no cotidiano, os ares e os costumes da princesinha que forjou-se na juventude. No casarão onde nasceu e vive até hoje ela preserva, com zelo maternal, as recordações da família em forma de móveis, louças, fotos, livros. Tudo está como no tempo de seus pais. Ou pelo menos quase tudo. Na parte da casa escolhida por ela como “seus aposentos”, algumas reformas garantem o maior conforto, como rebaixo em gesso, ar condicionado e banheiro adaptado para evitar quedas.
Como os estereótipos não são, mesmo, uma característica de Dona Jurema, a ingestão diária de frutas e legumes é a única parte que repete outras receitas de longevidade. “Eu janto todos os dias e não durmo cedo, pois desde moça gosto mais do sono da manhã. Nunca fiz uso do leite, mas como tudo o que tenho vontade. E não tenho dodói”, afirma. Sobre a vaidade, evidente no cuidado com que arrumou-se para receber os desconhecidos visitantes, ela não tem meias palavras: “sou vaidosa sim, mesmo com 102 anos. Acho que a gente tem que dar uma ajudinha pro tempo, né?!?”.
Para manter ativa a memória ela não faz nada que não fizesse desde a juventude. Lê jornais todos os dias, especialmente as páginas de economia, assunto pelo qual tem especial interesse. Vai ao banco com frequência tratar com o gerente sobre suas aplicações financeiras e faz questão de administrar pessoalmente os bens que possui. Também supervisiona o trabalho dos empregados que a assistem e faz questão de ter com eles uma relação fraterna e generosa. Por fim, não deixa de lado as obrigações na igreja, com seu grupo de orações. Até o salão paroquial da Matriz de Santo Antônio tem o seu nome.
Ao longo da conversa, a timidez daquela pequena senhora vai dando lugar a um momento de conteúdo secular, que mais parece uma viagem no tempo. Só volto a 2010 quando preciso deixar o passado para falar mais alto, para que o aparelho auditivo de minha interlocutora consiga captar o som da minha voz e transforma-lo em uma nova pergunta. E de novo ela me transporta para um zigue-zague no tempo, contando das vezes que foi ao Rio de Janeiro e à Bahia, visitar as irmãs. No princípio, embarcava no navio italiano Netúnia, no Porto de Rio Grande, e desbravava a costa do Atlântico. Já idosa, fazia as mesmas viagens de avião. Com o olhar um pouco mais sombrio, lembra da última viagem aérea que fez, há quatro anos, para o funeral da irmã no Rio. “Não quero mais viajar, não quero mais voar de avião. Pelo menos por enquanto”.
Dona Jurema foi casada por 30 anos com o rapaz que foi buscá-la em Lavras do Sul e a levou para viver em Porto Alegre. Não teve filhos. O marido morreu nos anos 70 e ela nunca mais interessou-se por homem algum. Já viúva, voltou a morar na terra natal, para cuidar de uma irmã doente. Ela não fala sobre isso, apenas responde brevemente às minhas insistentes perguntas. Vejo o semblante um pouco mais triste, decido mudar logo de assunto. Prefiro o sorriso, que roubo de vez em quando questionando sobre as aventuras de outrora. A sobrinha, Maria José, que mora na Capital e visita a tia regularmente, a faz lembrar de coisas curiosas, pergunta sobre pessoas e fatos, geralmente é corrigida por Dona Jurema por ter errado uma data, um nome, um acontecimento. A memória, nesse caso, melhorou com o tempo.
Já desliguei a câmera, já fechei o bloco, já prometi ir embora umas cinco vezes. Já tirei uma foto com Dona Jurema, já trocamos endereços, já prometi escrever. Sim, escrever uma carta, por que o computador foi uma das poucas coisas que intimidou a anciã. São 13h. O almoço já está pronto, esperando por ela na mesa da gigantesca cozinha do casarão. Preciso ir embora, mas a conversa custa a terminar. Vontade de ficar para ouvir mais. Um abraço, uma promessa de voltar. A porta se fecha atrás de mim deixando, do lado de dentro, uma velhinha sorridente e otimista aos 102. E, do lado de fora, uma repórter cheia de saudade.

terça-feira, 30 de março de 2010

Memória Missioneira
















A tarde caía sobre as ruínas da redução jesuítica de Santíssima Trinidad del Paraná, perto da cidade paraguaia de Encarnación. Caminhávamos por entre as casas dos guarani, os cemitérios indígenas e a estrutura intacta da velha catedral. A luz amarela do sol do fim do dia nos transportava para um mundo extinto há mais de 200 anos. Entre os deslumbres daquele lugar deslocado de seu tempo, encontramos um senhor gorducho e grisalho, lidando com um pequeno trator, recolhendo restos de vegetação por entre as pedras. E nos achegamos para um papo.
Augusto Goana, cinqüenta e poucos anos, é o zelador das ruínas da redução e responde pelo cuidado e conservação desse patrimônio da humanidade, declarado pela Unesco. Entre risadas, histórias e muitas perguntas, ele conta uma em particular.

Há alguns anos, quando estávamos restaurando o patrimônio e ainda descobrindo muitos detalhes do sítio arqueológico, perdi a hora dentro da catedral. Já estava escurecendo quando senti um pessoa caminhar por trás de mim e roçar na minha perna. Acreditei que era um de meus colegas de trabalho, mas ao olhar não vi absolutamente ninguém. Eu estava sozinho. É moça... tem muita coisa por aqui que a gente não vê”.

Como está ali há 40 anos, conhece cada pedacinho do patrimônio que ajudou a restaurar. Pelo trabalho junto com os pesquisadores e historiadores, recebeu um título honorário de arqueólogo. Na despedida, contamos a ele que retornaríamos mais tarde, para fotos noturnas da catedral. Por precaução e em reação à sua cara de espanto, perguntamos se teríamos algum problema. Sorrindo, seu Augusto nos tranquilizou: “se vocês virem alguma coisa, apenas deixem passar. Eles não fazem mal a ninguém”.
Deixamos a redução com o coração saindo pela boca, apaixonados pela história de crença misticismo que acabáramos de ouvir. Horas depois, uma noite fria e estrelada nos recebeu nas ruínas. E, apesar de nossa expectativa e apreensão, nenhum índio guarani ou padre jesuíta nos recebeu por lá. Não que a gente tenha visto.

Aí vão algumas fotos feitas pelo meu companheiro nessa aventura pelas Missões no Brasil, Paraguai e Argentina, o repórter-fotográfico Patrick Rodrigues.
Mais infos podem ser acessadas em www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/437/artigo125913-1.htm , o site da Revista Planeta, para quem produzimos essa reportagem.

quinta-feira, 18 de março de 2010

All we need is just a little patience


Há tempos quero – e preciso – começar um blog que tenha o meu nome, que diga algo sobre mim mesma e sobre meu trabalho. Por isso, aproveito um velho apelido dos tempos de colégio, o “Lima-Limão” para, finalmente, extrair do campo das ideias esse arquivo-portfólio-desabafo online. E, como o blog é meu mesmo, tomo a liberdade de, logo na primeira postagem, escrever uma semi-crônica que é muito mais um arroubo de emoção do que um texto sério. Vamos abrir os trabalhos com o show do Guns n’ Roses em Porto Alegre, o último da turnê brasileira, do qual participei sem bloco, sem caneta e sem câmera. Sequer tinha pauta. Fui vestida de fã, de corpo, alma, coração e lencinho na testa.
Minha paixão por Guns começou na adolescência, quando Use Your Illusion era lançamento. Muitas vezes me imaginei num show da banda, sonhei com o momento, mas já estava desiludida. Parecia que Chinese Democracy tinha um encosto. Até que... aleluia... na tarde de 16 de março, caprichei no tênis e parti para o estacionamento da Fiergs. Não era um delírio. Finalmente ia ver minha banda preferida!
Logo na chegada, fila mais comprida que o solo de Estranged. A promessa era abrir os portões às 16h, mas o povo começou a entrar eram quase 20h. “Ceva, ceva, ceva... tá bem gelada!”, gritava a ambulante com um isopor equilibrado na cabeça. Um olhar para o lado e lá está um sósia do Slash, com a cabeleira crespa, tentando furar a fila. Olha lá... é o próprio Axl Rose – mais gorducho e baixinho, além de feio – com uma cerveja na mão. Jovens com menos de 15 anos se amontoam, excitados, para cantar com uma banda que jamais viram fazer sucesso. Quando nasceram, o Guns n’ Roses dos sonhos já estava desfeito. De repente, um vendedor grita: “Atenção... a camiseta era 25, agora é só dez real”! Na roupa, a inscrição: EU FUI. Ele não sabe que esse sentimento não cabe em uma camiseta, muito menos em dez reais.
Aos 16 anos, não teria me incomodado com o atraso. Mas, aos 33, depois de ficar de pé por mais de sete horas, a coluna reclamando, o sono batendo ao fim de um dia de trabalho, até o próprio Axl já era objeto da minha raiva. Os boatos de todos os tipos davam conta de uma tragédia iminente. “Eles ainda nem saíram do Rio de Janeiro, parece que nem vêm mais”. “O show será cancelado, estão nos enrolando”. Pelo telefone, um amigo me manda para a casa, pois tudo está perdido. Não haverá Guns.
Lá pelas tantas, a entrada do enlouquecido Sebastian Bach dissipa os maus agouros. Se o Sebastian veio, o Guns também veio. O outrora lindo de morrer vocalista do Skid Row é hoje uma caricatura do heavy metal envelhecido. Engraçadíssimo em uma roupa justa de couro, o cara gritou, correu, sacudiu o microfone, tentou falar em português e até caiu um tombo no palco molhado. Uma figura.
Sim, o Sebastian tava divertido, mas a galera queria Guns! Até que, pouco antes das 2h, a pirotecnia anunciou a entrada daqueles estranhos que fizeram figuração – e alguns solos – para que o velhinho pudesse entrar e brilhar. Ele apareceu de calça jeans e um casaco luminoso, chapéu, óculos escuros, toneladas de anéis e pulseiras e o lencinho na testa. Uns quilos a mais, é verdade, que pareciam querer romper com os botões das camisas que ele trocava freneticamente. Mas foi só isso que separou o Axl quase cinquentão daquela miragem que me hipnotizava nos clipes da MTV. Cansaço? Espera? Atraso? Que nada... I was in the jungle, baby!
As mais de duas horas que se seguiram foram de êxtase. Ele pulou, correu, dançou, fez caras e bocas e cantou à vontade, extraindo todos aqueles gritinhos impossíveis da voz grave. Dê-lhe coração saindo pela boca nos clássicos. Nem precisava dos fogos de artifício que explodiram em Live and Let Die e You Could Be Mine. O fogaréu do povo já queimava há horas...
Um dos problemas de ser mais velho é que o senso também aumenta. Não gostei de ver o guitarrista usando uma cartola e colocando o cigarro entre as cordas antes de solar, como fazia mestre Slash. Blasfêmia. Também não gostei muito das músicas novas. Não gostei do copinho de água por cinco pila, não gostei dos marmanjos sem-noção que pulavam por cima da gente. Mas quem se importa com isso quando Axl senta no piano e solta a primeira nota de November Rain, com uma olhadinha sacana para o público, com toda a cumplicidade de quem se conhece há, pelo menos, 20 anos? Ou quando, no bis, ele solta a balada romântica mais linda de todos os tempos, pedindo só mais um pouco de paciência a quem já estava ali havia uma eternidade?
Ao final da chuva de papel picado de Paradise City, a voz do marido me acorda do transe, me resgata do paraíso. “Vamos embora”, diz ele. Despertei de um sonho. Antes de dar as costas ao palco, atirei um beijo ao vento. Um beijo pro Axl, perfeito, que apesar de todo o atraso (do show, do disco) não perdeu aquela cara de sou-foda e a capacidade de encantar. E um beijo pra menina adolescente deslumbrada – sweet child – que eu reencontrei lá no meio da galera, da qual às vezes me perco nessa vidinha de adulta.