segunda-feira, 17 de junho de 2013

O dia em que conheci Vitor Ramil

Os bastidores da visita à casa do músico, em Pelotas, para a reportagem publicada no Caderno Cultura, de ZH

"Os irmãos Ramil sempre estiveram presentes na minha vida. Talvez os mais velhos, Kleiton e Kledir, com mais frequencia, e o caçula, Vitor, com mais intensidade. São dele algumas das músicas mais lindas que conheço, como Estrela Estrela, Semeadura e Deixando o Pago. Sendo assim, ficou difícil separar a repórter da fã no momento de entrevistá-lo. Já havia conversado com ele para o Segundo Caderno de Zero Hora há coisa de uns dois, três anos. Mas por telefone. Somente formalidades. Ir até sua casa, em Pelotas, era para mim encantador e assustador ao mesmo tempo. Encantador por que aquela é a minha região, praticamente minha casa. Sou natural de Rio Grande e, como tal, tenho muita intimidade com a vizinha Pelotas. Além disso, fiz faculdade lá. É assustador por que Vitor é um sujeito cheio de lendas em torno de si: introspectivo, complicado, fechadão, maniático, antipático.
Felizmente para a repórter e, mais ainda, para a fã, a visita e a conversa correram tranquilas como o papo de bons e velhos conhecidos. Ele, realmente, é meu velho conhecido. Já eu... Chegamos, eu e o fotógrafo Marcel Ávila, em uma tarde ensolarada e morna, linda para um dia de outono na Zona Sul do Estado. Vitor nos aguardava com café recém feito. Entramos no casarão em que ele mora com a mulher, Ana Ruth, que infelizmente não estava em casa. Logo nos deparamos com aquela pilha de caixas em que estavam os CDs e livros que ele deveria autografar. Quase escondiam o baita piano que ele tem na sala. Começamos a papear. Sabe aquele cara taciturno, calado? Não sei quem é. Mas não é Vitor Ramil. Ele é falante, simpático e solícito, parece até que gosta de dar entrevista.
Depois de horas, meio envergonhada pelo clichê, propus que déssemos uma voltinha por Pelotas, para fotografias e mais conversa. Na hora. E lá fomos nós, nos banhando na luz oblíqua que deixa tudo mais bonito lá na Zona Sul, ouvindo as histórias que nosso anfitrião não parava de nos contar.
Ao parar o carro à beira Canal São Gonçalo, na região portuária, Vitor encontra um sobrinho. Dá umas palavras com o guri, que está ali lagarteando e tomando mate com os amigos. Na volta, digo que aquela visão me fez lembrar que não havia trazido minha mateira de Porto Alegre e não tinha chimarrão. Ai que vontade...
- Vai ali e pede um mate pros guris, enquanto a gente faz umas fotos ali...
- Será?
- Vai ali, parece que tá bom aquele mate...

Vitor em Pelotas, a sua Satolep. A foto é da SatolepPress


Ao final da tarde, deixamos Vitor de volta na porta de casa. Ainda deu tempo de comentar com ele que aquela se parecia muito com a casa da minha avó, em Rio Grande, comprida, cheia de cômodos e com grandes janelas. Também lamentei não ter conhecido o Mango, o dálmata de estimação. Já não era mais um dos meus músicos favoritos, nem o entrevistado para a pauta do Caderno Cultura. Era um velho conhecido.
- Querem tomar mais um café?
Poderia ser a oportunidade de estar um pouco mais no casarão, em companhia daquele que eu deveria descrever, dias depois. Mas fiquei com receio do convite ter sido só uma cordialidade. Já estava virando fã de novo.
Nos despedimos com ele pedindo cuidado com as imagens que fossemos usar e desejando nos rever, muito simpático.
No carro já em movimento, descendo a Dr. Amarante em direção do centro da cidade, eu e o Marcel nos olhamos e fizemos o único comentário que a emoção nos permitia:
- Tchê, mas foi melhor do que a encomenda!

O link para a reportagem completa está aqui

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Há quanto tempo...

Admito. Sou uma blogueira sem a mínima vocação. Sim, por que somente a falta completa de qualquer sentido vocacional explica um blog que fica um ano sem atualizações. Eu sei que não tenho nada de tão interessante assim pra dizer, mas pô... um ano! É brabo!

Mas, como tudo o que é bom se termina, dizia um velho ditado... o meu silêncio também acabou-se. Ao menos por hoje. Compartilho com quem interessar possa uma matéria deliciosa que fiz para a Revista Donna, de Zero Hora - que sempre rende meus frilas favoritos. O texto é resultado de uma conversa de mais de duas horas com a enóloga portuguesa Filipa Pato, sensação mundial pelos rótulos que tem produzido na região da Bairrada.

Uma mulher simples, verdadeira, divertida e muito apaixonada. Sem roupas caras, sem maquiagem e sem se achar uma celebridade. A conversa foi das melhores, parecia que já nos conhecíamos há tempos. Tá, me desculpem os jornalistas mais experientes... às vezes tenho esses acessos de amor pelas minhas fontes. Me deixem.

Como somos todos filhos de Deus até alguém prove o contrário, degustamos um espumante ao final da entrevista. O 3B, rótulo escolhido por ela para o momento, foi, sem sacanagem, o melhor espumante que já tomei.

Bom, dito isso... aí está o texto e a Filipa. E eu volto ao silêncio, sabe Deus até quando.


O jeitinho Filipa de ser

Depois de uma maratona de jantares, entrevistas, harmonizações e palestras em Brasília, Vitória, São Paulo e Curitiba, a enóloga portuguesa Filipa Pato, sensação do momento no mundo dos apaixonados pela bebida, chega a Porto Alegre um pouco cansada, é verdade, mas pronta para mais uma entrevista.


- Queres descansar um pouco, comer alguma coisa antes de começarmos? – pergunto, com receio de encontrar uma interlocutora pouco disposta, como é o caso de muitas famosas por aí.

- Não, não te preocupes. Almocei bem, podemos conversar. Podemos já falar dos vinhos agora mesmo – diz ela, com o semblante restabelecido por alguns goles de água e pela possibilidade de discorrer sobre sua grande paixão.

Ela sempre conviveu com uma relativa fama devido aos vinhos produzidos pelo pai, Luís Pato, posicionados muitas vezes entre os melhores de Portugal. Mas foi com seus próprios rótulos que Filipa alcançou renome internacional, especialmente depois de ser reconhecida, em 2011, como enóloga do ano pela prestigiada revista alemã Feinschmeker. A convite da importadora Porto a Porto, que revende seus rótulos por aqui, a enóloga ficou alguns dias em solo gaúcho divulgando suas criações.

A mulher moderna com ares de celebridade que espero encontrar naquela tarde, capaz de transcender os limites dos feitos do pai para brilhar sozinha no concorrido mundo do vinho, é apenas uma ilusão. Os traços marcantes do rosto, fruto dos genes portugueses, estão ali sem máscaras. Nem uma gota de maquiagem tira o foco dos olhos puxadinhos e das sobrancelhas fartas – cultivadas, é claro, longe das pinças. É pequena, veste-se com simplicidade, usa poucos acessórios. Os 37 anos escondem-se no bom humor e na pele saudável, salvo em alguns quase imperceptíveis fios de cabelo branco. Como uma metáfora de si mesma na pele da produtora de vinhos, ela é o que é, sem disfarces. Tudo o que importa está na essência, no interior da garrafa.

De cosmopolita e moderna, Filipa também tem apenas o necessário à profissão. Já viajou o mundo todo provando vinhos e, mais recentemente, divulgando seus produtos. Depois do nascimento dos filhos, Francisco, três anos, e Fernão, 11 meses, deixa a propriedade em que mora, na região da Bairrada, centro de Portugal, apenas para promover seus vinhos (o Brasil e a Inglaterra são os principais destinos) e para passar temporadas na terra do marido, a Bélgica.

Para mostrar ao mundo sua capacidade, Filipa precisou libertar-se do pai. Isso não significou, no entanto, um rompimento com tudo o que havia aprendido. Ao conhecimento adquirido pela família, que faz vinhos na Bairrada há muitas gerações, ela somou a técnica obtida no curso de engenharia química na Universidade de Coimbra e a experiência acumulada mundo afora. Estava formada assim uma das dez enólogas mais influentes de Portugal.

Apesar da aura de modernidade, tradição é o que realmente importa. Tanto que seu slogan é “Vinhos Sem Maquilhagem”. Assim como ela, o vinho que nasce de suas sensações não leva qualquer tipo de aditivo para que se estabilize. Nem os vinhedos são tratados com agrotóxicos. Depois de fermentado, passa pouco tempo estagiando em barricas de madeira.

- A madeira tem que ser usada com muita cautela, pois é a moldura do vinho. Serve apenas para realçar a arte que vem de dentro, da característica revelada pelas uvas – garante.

Morar na terra natal, preservar o velho jeito de fazer vinhos, usar castas autóctones da Bairrada como baga e bical e até batizar os filhos com nomes que, segundo ela, são clássicos caindo em desuso em Portugal revelam uma personalidade apegada a raízes, tradições. Talvez por isso os sorrisos sejam mais fartos ao comentar seu novo projeto. Recentemente, comprou uma propriedade que, na sua infância, era arrendada pela avó para plantar uvas e elaborar vinhos. Com a crise na Europa, muitos vinhedos estão sendo vendidos, para sorte de gente como Filipa.

- Ali há vinhas velhas, produzindo muito bem. Vou fazer uma reforma para acomodar as barricas no subsolo e construir uma área para degustação. Agora quero que me visitem – planeja.

Com seus rótulos comercializados em 15 países e uma produção que não ultrapassa as 150 mil garrafas por ano, Filipa quer continuar controlando o processo, garantindo a qualidade e ainda tendo tempo para os filhos. Eles, aliás, foram os sonhos que mais lhe custaram sacrifícios. Acostumada a beber, pelo menos, uma taça de vinho todos os dias, ela se viu impedida de praticar o hábito que cultivou desde muito cedo por prazer e profissão.

Às gargalhadas, ela representa o diálogo que teve com o médico na primeira consulta do pré-natal.

- Olhe, aí tem piada, veja. Fui a um médico que sabia ser apreciador de vinhos, na esperança que ele me deixasse beber só um pouco. Mas ele logo me disse:

- Não podes beber nada!

- Nada?

- Nada!

- Tive que trocar de médico!

O problema foi resolvido com uma médica belga que, sabendo da profissão de Filipa, liberou um cálice diário depois do primeiro trimestre de gravidez.

Para estar mais tempo junto às vinhas, na companhia dos filhos e do marido, Filipa viaja cada vez menos e não tem a menor intenção de expandir os negócios, cultivando uvas e fazendo vinhos em outros locais da Europa ou do mundo. Talvez com uma exceção.

- Provei um vinho que me agradou muito, feito com castas portuguesas na Campanha Gaúcha. Não conheço esta região, mas me interessa muito. Pelo que provei, talvez a Campanha fosse o único lugar do mundo em que eu pensaria em fazer vinhos fora da Bairrada. Quem sabe, não é?

Quem sabe, Filipa?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A encantadora de cavalos

Reportagem publicada na revista Donna, de Zero Hora, sobre a treinadora de cavalos Denise Bicca, que trabalha em todo país a partir de sua base, na Zona Sul de Porto Alegre. Além de ter conhecido essa mulher sensacional, tive a honra de trabalhar ao lado do Kadão, uma lenda do fotojornalismo brasileiro. Inesquecível.
O vídeo a seguir foi editado pela equipe de zerohora.com e tem imagens feitas pelo senhor Ricardo Chaves, o Kadão, de quem fiquei ainda mais fã depois dessa matéria.



A encantadora de cavalos


Dentro do espaço exíguo de um redondel de madeira, a pequena mulher olha diretamente nos olhos de um gigante de mais de meia tonelada. Um simples gesto de sua mão o faz caminhar. Correr. Parar. O toque suave na pata dianteira deita um garanhão puro sangue lusitano como se fosse um cachorrinho de estimação. Ela deita-se por cima dele, conversa, brinca e finalmente o convida a levantar. E vai em sua garupa, tendo o lombo por sela e a crina por rédea. É assim que a gaúcha Denise Bicca Fernandes, de 47 anos, lida com seus animais favoritos. Com gestos suaves, muita comunicação e nenhuma violência, ela ganha a vida – e o sentido para viver – no convívio com os cavalos.
O dom impressionante que Denise demonstra no trato com animais de todos os tipos, dos mansos aos mais ariscos e traumatizados, não é, segundo ela, uma habilidade especial. Utilizando a técnica do Natural Horsemanship, ela garante que qualquer um pode repetir seus feitos. Difícil de acreditar, mas fácil de entender como ela consegue. Afinal, basta puxar um papo sobre cavalos que o olho dela brilha. Só o olho não. Toda a figura de pouco mais de um metro e meio se põe radiante para debater o assunto sobre o qual mais sabe, e mais quer saber.
Toda essa paixão já transformou Denise em uma das treinadoras mais requisitadas do país, chamada para palestras, cursos e missões de "resgate" em quase todos os Estados. Quer treinar cavalos para provas de rédea, rodeios ou competições de velocidade ou salto? Chama a Denise. Animais desobedientes, violentos, agitados, ou que já não têm mais jeito? Deixa com ela.
Sentada à sombra de uma figueira de 300 anos, na sua propriedade no bairro Lami, onde recebeu a reportagem de Donna, ela tenta contar como é simples o trato com os cavalos, mesmo os mais rebeldes.
– É tudo sobre comunicação. Os seres humanos tentam conversar na sua própria língua e ocorrem os problemas. Quando o homem aprende a linguagem do animal, consegue formar com ele uma parceria. E essa ligação é muito forte, muito bonita – emociona-se.
As palavras, no entanto, parecem não ser suficientes para contar, afinal, como é que ela faz todas aquelas proezas postadas em vídeos e textos em um blog criado para a divulgação do Natural Horsemanship e do trabalho como treinadora.
– Venham ver, vocês vão entender tudo quando olharem para o cavalo – diz.
E lá vai ela com o Quali (apelido para Qualificado do Eldorado), explicar na prática tudo o que havia dito sobre compreender a linguagem corporal do cavalo, seus sinais e o modo como interpreta o mundo à sua volta.
Apaixonada desde criança por cavalos, entrou para a escola de equitação do Cantegril, de Viamão, em 1973. Participou de competições montando cavalos que ela ajudava a treinar e, desde então, já sabia que não poderia viver longe dos animais. Em 1989, a formatura na Faculdade de Veterinária da UFRGS foi o passo definitivo para algo que já desejava desde sempre: dedicar a vida aos equinos.
Natural de Quaraí, na Fronteira Oeste, nunca teve uma rotina campeira. Filha de um juiz e uma professora de alfabetização, trouxe de berço o gosto por contar histórias – hábito que pratica hoje na internet. O pai, mecânico de aviação da FAB, conheceu a mãe, que morava em Alegrete, durante a Segunda Guerra, por correspondência. Depois de formar-se em Direito, correu para o Rio Grande atrás de seu amor. Os dois começaram assim a família em que Denise é a caçula. Aos quatro anos, quando morava em Caxias do Sul (as transferências do pai obrigavam a família a se mudar com freqüência), viu um cavalo pela primeira vez.
– Olhar o animal, tocar nele, aquilo tudo me marcou muito.
Em 2001, durante um encontro de veterinários, competidores e tratadores, em São Paulo, conheceu a técnica na qual é especialista. Desde então, dedica-se a estudar e aprimorar o método de comunicação e treinamento que rende obediência ao tratador e bem estar ao animal. Nos intervalos das palestras e cursos que ministra em todo o país, ela recebe cavalos no Centro Equestre Gallop, que montou na sua propriedade.

Terapia e sonhos a galope

Agitada, dispersiva e impaciente confessa, Denise afirma que encontrou no trabalho a terapia ideal. O contato diário com os cavalos a faz, segundo ela própria, lidar melhor com as pessoas e com si mesma.
–  Eu me irritava com facilidade. No trânsito, então, às vezes queria matar alguém. Mas eles me ensinam a ter paciência, a ser mais flexível, a funcionar em outro ritmo. Isso tudo é um baita divã – diverte-se.
Mostrar a mais gente como pode ser harmônica e produtiva a relação dos seres humanos com os cavalos é a atual empreitada de Denise. E ela tem pressa. Quer disseminar o conhecimento que acumulou em anos de trabalho com equinos, para que mais pessoas entendam o processo de comunicação com o animal e possam, assim, ter melhores resultados e proporcionar mais bem estar ao companheiro de serviço ou competições. Dou consultoria, cursos, workshops e treinamentos. Mas ainda é pouco. Meu sonho é fazer tudo isso com muito mais gente e, especialmente, com crianças que desde muito pequenas lidam com cavalos, seja em centros equestres, nas lidas campeiras ou numa família de carroceiros. Espalhar esse conhecimento é urgente.
A empolgação por contar os projetos futuros é interrompida por algo que a empolga ainda mais. É Negro, um cavalo crioulo domado e treinado por ela desde que nasceu, que chega ao redondel, já encilhado e pronto para a montaria. Ele joga bola, anda e galopa de um lado para o outro e termina o passeio sem freios ou rédeas, obedecendo somente à voz e aos movimentos do corpo de Denise. Ao final da demonstração, ela resume toda técnica ao afagar a cabeça de Negro:
– Muito bem! Que bela parceria temos, hein?

Online
Na internet, Denise é a Muié dos Cavalos. O apelido dá nome ao Blog em que ela posta vídeos demonstrando treinamentos e dicas para outros apaixonados por cavalos. A linguagem coloquial faz o leitor ouvir os sotaques e as expressões faladas no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre. É esse sotaque que Denise leva para todo o país em seus cursos e palestras ou nos bytes do blog. O endereço é http://muiedoscavalos.blogspot.com.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Meus encantos na Zona Sul

Desde que, finalmente, me mudei para Porto Alegre - a cidade em que sempre quis viver - me apaixonei pela Zona Sul da cidade. A proximidade com a orla do Guaíba, o vento gelado, as enormes figueiras e um jeitinho interiorano fazem dessa região a mais bonita e aconchegante da capital. Já tentei morar lá, mas nunca deu certo. Tudo bem. Hoje circulo bastante por lá, o que não é suficiente, mas ao menos me proporciona bons momentos.
E qual foi minha felicidade ao fazer a reportagem que ilustra a capa do Donna ZH, falando justamente sobre o meu lugar favorito nessa capital. Eu deveria explicar, afinal, o que a Zona Sul de POA tem que diferente. Não encontrei, obviamente, uma fórmula exata. Mas conversei com muita gente bacana que me deu boas pistas. Resultado: terminei a matéria ainda mais encantada por esse lugarzinho tão especial.

A foto que ilustra esse post foi feita por mim há alguns anos, pra ilustrar uma matéria que fiz para a extinta revista de bordo da Varig. A página do Donna tu acessas aqui

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dias de mercado

Aventurazinha das mais divertidas, com direito a horas de conversa com personagens únicos e o deleite com sorvete e bolinho de bacalhau dos deuses. Resultado? Esta reportagem publicada na Revista Na Poltrona de abril/2011. Texto meu, fotos do Patrick Rodrigues.

Vista geral do Mercado Público de Porto Alegre
O mercado a passos largos
O vovô cantor do Gambrinus
O mundo está no mercado público

Ali se encontra de tudo um pouco: comida, bebida, arte, cultura, diversão, identidade. Há séculos, povoados nasceram no entorno dos entrepostos comerciais que supriam a comunidade de tudo o que era necessário. Hoje, esses mercados seculares continuam sendo o coração das grandes cidades, que ainda pulsam com o mesmo vigor e simplicidade de antigamente.


Para entender a verdadeira essência das capitais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a equipe de Na Poltrona desbravou os mercados públicos de Porto Alegre e Florianópolis, em busca dos produtos e das gentes que traduzem, por meio do comércio, um pouco do que é ser gaúcho, ser catarinense, ser brasileiro no Sul deste país. Em nossa jornada pelos dois Estados, encontramos os personagens, os cheiros, os sabores, os sotaques, a alma de cada lugar.

Uma janela no tempo à beira do Guaíba

No Centro Histórico de Porto Alegre, ao lado do cais do porto, um prédio amarelo quebra a monotonia dos cinzas dos arredores. Está ali, imóvel, no meio de tanta gente que passa apressada. Inaugurado para abastecer a cidade em 1869, o Mercado Público resiste como uma janela no tempo, um parêntesis, um oásis onde passado e presente se confundem no coração de uma das maiores capitais brasileiras.
Quando o sol desponta nas manhãs frias do outono sulino, a gauchada começa a chegar para tomar o café no mercado. O cheirinho dos pães e doces emana das confeitarias e padarias que estão entre as mais antigas e tradicionais da cidade, como a Copacabana e a Pão de Açúcar. De executivos a donas de casa, todo mundo se encontra no balcão desses templos, pedindo meia dúzia de cacetinhos (nome local do pão francês) para o desjejum da família ou aguardando a saborosa recheada prensada (sanduíche feito com pão francês, presunto, queijo e manteiga e aquecido na chapa).
Para além dos ambientes perfumados pelo trigo recém assado, o mercado se revela múltiplo. Desde a inauguração, os alimentos são o foco, oferecidos ali em profusão. Nas bancas de frutas e temperos, o nativo convive com o exótico. Espécies de todo o país, como a banana-do-mato, a pitaia e o mangostim, fruta da Amazônia, convivem com o que é original das bandas do Sul, como o butiá, o figo e o araçá.
Falando em sabores nativos, é no setor de carnes que se percebe a paixão do gaúcho pela carne vermelha. Açougues oferecem, há décadas, os cortes preferidos dos churrasqueiros, como a costela de novilho (boi jovem, cuja carne é mais macia), o vazio e a maminha. Ao lado, bancas inteiras dedicam-se ao charque, carne salgada e seca ao sol, que já foi a base da economia do Rio Grande nos séculos 18 e 19.
Um empório de bebidas faz coro com as bancas que vendem alimentos, convidando o visitante a encher a sacola de ingredientes para o preparo de um jantar especial. A Banca 38 é uma das maiores adegas de Porto Alegre, oferecendo vinhos de todo o mundo e, em especial, das vinícolas riograndenses.
Enquanto os sentidos se confundem com frutas, especiarias, charques, bacalhaus e vinhos, as figuras típicas quase passam despercebidas. Mas estão sempre lá a nos lembrar de que estamos no Rio Grande do Sul, um dos estados em que a tradição é mais forte e cultuada pelo povo. É só prestar atenção para ver um gaúcho bem pilchado, vestindo bota, bombacha e lenço no pescoço, escolhendo erva mate nas muitas bancas que oferecem o produto envasado ou a granel. No Mercado público, o homem do campo – sim, os homens do campo ainda visitam a capital em busca de suprimentos – encontra o que precisa: desde os tamancos de madeira para enfrentar o frio até a cuia nova para o chimarrão, tudo se vende por aqui.
E tem muito mais: panelas de ferro e barro, facas, sementes, remédios para os animais, equipamentos para montaria, pilchas (botas, bombachas e outras peças da indumentária gaúcha), ração para os animais, utensílios para a casa, artesanato, antiguidades, feira de discos de vinil, restaurante japonês e até internet sem fio gratuita.
Diversidade religiosa nas bancas do mercado gaúcho

O coração da Ilha da Magia

Ao descer da ponte que desvela ao visitante toda a magia da Ilha de Santa Catarina, já dá para ver ao longe a silhueta do velho mercado emoldurado pelas luzes do fim da tarde. O prédio erguido no século 18 é o coração de uma cidade que cresceu devagar, de mansinho, quase no ritmo das ondas do mar que bate logo à frente. Quem busca uma tradução de Florianópolis, encontra ao atravessar o vão central deste entreposto.
A proximidade do mar não é um simples acaso no mercado de Floripa. O que começou com barraquinhas onde se vendia comida, artesanato e, especialmente, o pescado abundante em todo o litoral catarinense, é hoje um dos melhores locais do Estado para comprar frutos do mar. Os mundialmente famosos congrio e salmão estão lá, mas a grande atração são as iguarias locais, que o legítimo manezinho da Ilha sabe preparar como ninguém. Sardinhas, berbigões e ostras são abundantes em um corredor inteiro, onde funciona uma dúzia de peixarias.
Um litoral tão extenso e farto fez do povo de Florianópolis um apaixonado pelos frutos do mar. O mercado, claro, é um reflexo dessa paixão. Nas mesas dos bares que ficam lotados para o happy hour, o cardápio até tem variedade, mas os campeões de vendas são sempre os mesmos: pastel de camarão e bolinho de peixe.
No balcão do Box 32, as cachaças artesanais fabricadas em Luís Alves, no Vale do Itajaí, harmonizam com os temperos caseiros que conferem um sabor secular aos petiscos. As conservas de pimenta elaboradas sob medida para o bar completam a degustação. Antes de deixar a mesa com os sentidos repletos pelo perfume dos peixes e camarões, nos entregamos à hospitalidade dos manezinhos, que com seu sotaque cantado tão particular revelam o verdadeiro significado do apelido “Ilha da Magia”.
Em meio ao artesanato e à gastronomia, é possível testemunhar a riqueza da cultura local. Na época da Quaresma, grupos de Boi de Mamão se apresentam no vão do mercado, mantendo viva uma tradição que os primeiros habitantes de Floripa trouxeram da Ilha dos Açores. Em tempos de carnaval, um palco montado na praça faz a prévia para os desfiles das escolas de samba. As festas, manifestações populares e até os protestos tem lugar neste antigo refúgio comercial e cultural.


Protagonistas dos Mercados

Trabalhar em um mercado público pode ter conseqüências. De tanto tempo vivido nesses ambientes singulares, o personagem acaba se confundindo com o lugar, virando parte da paisagem, tornando-se um órgão pulsante desse grande organismo. É o que aconteceu com muita gente que encontramos pelo caminho. Jovens ou veteranos, eles têm o comércio correndo nas veias, bombeado pelos prédios centenários que já chamam de lar.
É o caso de Rômulo Barretos, de 27 anos, que administra, ao lado do pai, Beto, o bar mais badalado do mercado de Florianópolis, o Box 32. Fundado em 1984 para ser uma representação do que há de melhor na cidade, o local é um dos pontos mais visitados da capital catarinense. Prova são as fotos de gente famosa nas mesinhas, que compõem a decoração do local. “Cresci dentro do mercado e aprendi com o meu pai que aqui está a essência da cidade. Nosso desafio é preservar esse ponto de encontro e fazê-lo melhorar ainda mais”, comenta.
A alguns passos do Box 32, o brilho dos alumínios expostos na porta da pequena loja ofusca a história do filho de libaneses que prosperou no Mercado de Florianópolis. Fundador do Bazar Mansur, Gedeão Mansur tinha a vocação do comércio e começou vendendo artigos de armarinho no Box comprado em 1947. Pouco tempo depois, percebeu que os novíssimos utensílios de alumínio seriam bem mais rentáveis e transformou a loja em empório de artigos para a casa. “Ele chegou a vender três caminhões de alumínio em um mês”, relembra a filha Marlene Mansur de Moraes, que ao lado do marido, José, administra o negócio.
Uma grande foto do pai homenageia as origens da família e mostra aos clientes que seu Mansur permanece vivo nas lembranças guardadas nas paredes do velho mercado.
Em Porto Alegre, no atendimento do restaurante mais antigo da cidade está uma figura que sabe tudo de mercado. E de música. Jorge Alberto Oliveira, o vovô, é garçom no Restaurante Gambrinus há 40 anos. Com mais de 120 anos de idade, o local era um dos preferidos de Lupicínio Rodrigues e de toda uma geração de músicos e boêmios, a quem o vovô fazia questão de atender. Hoje, o pitoresco garçom de quase 70 anos é só alegria no serviço. Os clientes mais fiéis ou mais simpáticos são presenteados com uma canção, sempre escolhida conforme o momento, que remonta os tempos em que os autores frequentavam as velhas mesas do restaurante. A reportagem de Na Poltrona ganhou a interpretação intensa de uma das canções de Francisco Alves, o Rei da Voz, cantor carioca que fez sucesso nas décadas de 1920 a 1940 e não perdia um almoço no Gambrinus quando passava pela capital gaúcha.
Bem mais jovem que o Gambrinus – tem apenas 84 anos – é a Banca 40, que abriga personagens e a salada de fruta com nata ou sorvete mais famosa da cidade. Preparada com frutas da estação, a mistura foi a primeira invenção do português Manoel Maria Martins, em 1927. Durante a Segunda Guerra Mundial, Manoel queria saudar os europeus que se refugiaram no Rio Grande do Sul. Misturou suas delícias e deu origem à Bomba Royal, doce com pedaços de frutas, três sabores de sorvete e nata batida. Algo menos do que divino não define a taça que é a campeã de vendas.
A também portuguesa Madalena Martins, nora de Manoel e administradora da Banca 40, explica que tudo ainda é feito conforme os ensinamentos do sogro. “Nunca quis abrir filiais ou usar produtos industrializados. A gente tem que pôr a mão, né?”. A estratégia para manter um negócio familiar bem sucedido por mais de 80 anos? “É bom estar aqui e fazer parte da história de quem vem comer. Só isso”.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

All my Loving to Paul McCartney

Close your eyes and I’ll kiss you
Tomorrow I‘ll miss you
Remember I’ll always be true…
Quando ouvi esses versos no meio da gritaria, minha ficha caiu. Era ele mesmo que estava ali, na minha frente, cantando e tocando seu contrabaixo ao contrário. Com as mesmas botinas de salto quadrado, o mesmo terninho (com o toque de um roxo ousado, é verdade), o mesmo cabelo, os mesmos olhos, a mesma voz inebriante. Era Paul McCartney tocando pra mim. Era o meu dream came true em pleno Beira Rio, numa noite quente de novembro. A Day in The Life.

Não me lembro quando conheci Beatles. Como lá em casa sempre se ouviu muita música, eram LPs e fitas que rodavam de tudo, inclusive eles. Sei bem, no entanto, quando comecei a me apaixonar. Eu tinha 12, 13 anos. Comprava os discos com a mesada que ganhava trabalhando na farmácia com meu pai, nas férias. Enquanto a galera da escola escutava sei lá o quê, lá estava eu, vidrada na velharia. Para entender o que cantavam, quis por que quis estudar inglês. O primeiro livrinho de cifras pra tocar violão, óbvio, foi um especial dos caras. No meu aniversário de 15 anos (na época se fazia 15 anos...), a trilha sonora foi uma só.

- Pai, diz pro cara do som que tem que tocar Beatles. De qualquer maneira!

No momento mais animado da festa, Twist and Shout a todo volume. No vídeo que reproduzia o evento, The Long and Winding Road me acompanhava em câmera lenta.

Entre minhas paixões juvenis, Paul McCartney foi a primeira. Ok, eu sabia que ele não era nenhum Tom Cruise, mas não podia deixar de suspirar pela voz que cantava Till There Was You repetidas vezes no toca-disco do meu quarto. Admirava John, simpatizava com George, Ringo estava ali, tudo bem, mas era Paul que tinha All My Loving. Desde sempre, foi ele o meu beatle favorito.

Na adolescência, outros amores me conquistaram. Guns‘n Roses, U2, rock brasileiro, folclore latino, tudo se misturava aos hormônios dos meus 17 anos. Mas nunca houve caso de passar batida por uma música dos Beatles. O coração sempre disparou.

Ao virar adulta e poder planejar o que fazer com os parcos trocados que o ofício de jornalista me proporciona, tinha um propósito: preciso ver Paul McCartney. Quando vier ao Brasil enfrento o Maracanã lotado. Se não vier, bem, um dia economizo e Londres que me aguarde. Felizmente, não precisou. Ele veio até Porto Alegre me encontrar.

E eis que assim chegou o momento sublime que vivi no último dia 7. Foram sete horas de fila, calor escaldante, cansaço. Mas nada poderia diminuir um milímetro da emoção de ver o maior músico de todos os tempos subir naquele palco, lindo como nos meus sonhos, para tocar, falar português – e gauchês!, fazer piadinhas, dançar e arrebatar 52 mil corações.

O responsável pela minha beatlemania estava lá, de binóculo em punho, ao meu lado na arquibancada. Depois de muito argumento, convenci meu pai a ir junto. Nada mais justo do que dividir esse momento com quem, afinal de contas, me apresentou o astro daquele espetáculo. Ele não dançou, não gritou, não chorou como eu. Mas dava pra ver o sorriso quando a banda soltava as primeiras notas de alguma velha canção, que lhe embalou a juventude. Day Tripper, um balanço tímido de cabeça. Paperback Writer, uma embaladinha no corpo. Ao refrão de Hey Jude nem ele resistiu. Só ele sabe das lembranças guardadas naquele na-na-na...

Para a noite ficar mais do que perfeita, faltaram apenas as pessoas que gostariam tanto quanto eu de estar ali. Minha irmã, a quem transmiti o vírus na infância e que só pode compartilhar Back in the USSR pelo telefone enquanto voltava pra casa de ônibus. Meu marido, que comprou o ingresso mas, por ser tão bacana, mandou o sogro. Minha amiga Zeneida, tão fanática quanto eu – não sei quem contaminou quem neste caso. Fernanda, minha prima, com quem dançava até cansar nas festas da família. Minha mãe...

Entre as lágrimas pela presença e os vazios das ausências em um estádio lotado, o show chegou ao fim. Hoje, mergulhada nos meus prazos e compromissos, ainda consigo ouvir a voz dele... Escrevi essa música para minha gatinha Linda, mas, esta noite, ela é para todos os namorados... and when I go away I know my heart can stay with my love... ainda vejo o vento balançando de leve os seus cabelos, I give her all my love, that’s all I do... e penso que virou realidade tudo o que um dia eu cantei... and hope that my dreams will come true.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Adoráveis ginetes


Descobrir o novo e deslumbrar-se com ele é o que torna o jornalismo a melhor profissão. Uma reportagem pode abrir os olhos da gente, nos fazer enxergar um pouco além do véu da rotina que costuma cobrir nosso olhar.
Um exemplo é uma matéria publicada – coincidência – no dia do meu aniversário, no Caderno Donna, de Zero Hora. Comecei simplesmente querendo fazer o perfil da menina que seria uma das poucas mulheres a chegar na final do Freio de Ouro, a maior competição do cavalo crioulo. No curso da reportagem, descobri um mundo novo, uma realidade em que a gineteada também é coisa de mulher. E que a delicadeza feminina pode, sim, dominar um dos animais mais fortes e enigmáticos.
Ao fazer a matéria, descobri a menina sonhadora que vive no corpo da ginete Carolina Zagonel. Descobri a simplicidade de Soledad Ferreira, a uruguaia que há anos participa do Freio de Ouro, sem alarde. E fui invadida pela paixão da Eliana, a primeira de todas, a pioneira na final, que disputou com os melhores quando tinha apenas 16 anos.
Por fim, me dei conta de como são incríveis essas mulheres. Essas e tantas outras. Com tristeza percebi que nunca poderei sentir a mesma emoção que elas. Depois de um tombo, me assombra a ideia de montar o mais manso dos cavalos. Felizmente, sou jornalista. Pude, ainda que de forma emprestada, compartilhar com elas toda a emoção de viver ou ter vivido o sonho do Freio de Ouro.
Na foto, feita pela equipe de divulgação da ABCCC, Carolina monta Amora Maufer, no dia da sua classificação para a final do Freio de Ouro. Aqui está a reportagem completa.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Vamo protestar!




Passar o dia conversando com gente, ouvindo, aprendendo e até curtindo a música feita pelo autêntico trovador gaúcho para o protesto. Eita matéria boa!

O resultado é a reportagem publicada hoje na editoria de Economia de Zero Hora. Aqui vai o texto original, sem edição. A foto é da Assessoria de Imprensa da Farsul.


O campo se une na cidade

Eles viajaram por quase quatro horas para protestar. Não estão muito acostumados com manifestações, assinatura de documentos, discursos de políticos, promessas e cobranças. Em suas propriedades, no interior de Sobradinho, Ivo Busatto e Elias Puntel se ocupam de fazer o que sabem: plantar soja, milho, feijão e fumo. Mas, nos últimos anos, os sucessivos prejuízos com a lavoura os fizeram pensar que precisavam ser ouvidos. Assim foram parar entre centenas de produtores rurais de todos os tamanhos, culturas e regiões do Estado, que se reuniram ontem na Praça Saint Pastous, diante da sede da Farsul, para comunicar sua insatisfação.


Ao lado de grandes do agronegócio gaúcho, como Armando Chaves Garcia de Garcia, pecuarista e produtor de arroz e soja, ou Jorge Rodrigues, do leite, os dois vieram à capital pedir o que consideram essencial e urgente para a manutenção da atividade no campo: seguro para cobrir os prejuízos provocados pelas mudanças climáticas, como estiagem de 2005; mais renda, o que se obtém com insumos mais baratos e melhores preços de venda da produção; e solução para o passivo já acumulado pelos produtores, que estão endividados e não conseguem quitar os débitos.


Busatto, proprietário de 80 hectares, deve R$ 200 mil ao Banco do Brasil desde 2004. Para rolar a dívida, já vendeu máquinas e contraiu novos empréstimos. Puntel, dono de uma pequena propriedade de 14 hectares, deve os mesmos R$ 200 mil, fruto da compra de um trator e dos sucessivos financiamentos que precisou contrair para adquirir insumos. Em defesa deles, entidades como Federarroz, Fecoagro, Aprosoja e Fetag se uniram ao Sistema Farsul para organizar o protesto que ocorreu no asfalto da capital, mas em tudo lembrou a realidade rural.


Durante a manhã, o chimarrão quente espantou o frio e abriu o apetite enquanto lideranças do setor, políticos e candidatos faziam discursos. Quem concorre a um cargo eletivo no próximo pleito se comprometeu com a causa de Busatto, Puntel e todos os outros que estavam ali desde cedo. Quem lidera entidades de classe, alertou para a importância do voto, instrumento capaz de mudar, por meio da política, a situação do campo.


- O mesmo homem do campo que sustenta a economia brasileira não consegue cumprir seus compromissos, porque não há renda para o produtor, independente do tamanho. Devemos corrigir essa situação com o voto - alertou Carlos Sperotto, presidente da Farsul.


Depois do carreteiro saboreado em plena praça, multidão e carro de som tomaram uma das pistas da Avenida Loureiro da Silva, em direção ao prédio do Ministério da Agricultura. Ivan Busatto e Elias Puntel caminharam ao lado de gente que nem conheciam, na esperança de obter, ao fim da marcha, alguma garantia. Busatto precisa mandar a filha mais velha para a faculdade, mas não vê jeito. Em 2003, a prestação da colheitadeira lhe custava 700 sacas de soja. Hoje, a máquina lhe toma, por ano, 1,1 mil sacas - o que não deixa folga no orçamento. Já Puntel não quer entregar a terra recém adquirida para cobrir o que deve ao banco. A safra deveria ser suficiente para as prestações e o sustento da família. No entanto, o preço baixo das commodities o obriga a escolher o que pagar.


O superintendente do Ministério da Agricultura no Rio Grande do Sul, Francisco Signor, recebeu o documento assinado durante a manifestação e falou à multidão que se aglomerou na porta do prédio, garantindo o envio da carta ao ministro da pasta, à Casa Civil e à Presidência da República. Será o primeiro passo para nacionalizar o movimento, como querem as entidades organizadoras.


- Foi uma manifestação ordeira e significativa, que representa uma mobilização que não termina hoje. Não é aceitável que tenhamos cada vez mais produção e menos renda no campo - ressaltou Signor.


Ainda na tarde de ontem, a direção da Farsul reuniu-se com o Banrisul, para pleitear prorrogação da dívida dos produtores sem a necessidade de autorização do Banco Central. Também foi marcada para o próximo dia 17 uma reunião na Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), na qual será oficializado um documento nacional com reivindicações de todos os estdos.


Depois disso, fim de protesto. Grandes e pequenos, rurais e urbanos, todos foram para casa. Um ônibus fretado em Sobradinho aguardava por Ivo Busatto e Elias Puntel no estacionamento do Parque da Harmonia. Enquanto as garantias firmadas ontem não viram realidade, eles voltam ao campo para fazer o que realmente sabem: produzir.

domingo, 1 de agosto de 2010

Histórias e rendas nas fortalezas de Floripa







Uma reportagem é sempre um desconhecido. Não importa quanta pesquisa e produção envolveu a matéria. Quando os olhos, lentes e blocos se abrem para uma história, o novo está ali, pra surpreender a gente.

Este texto é parte de uma reportagem produzida em dezembro de 2009, sobre as fortalezas da Ilha de Santa Catarina. No meio de tantas pedras que contam histórias, encontramos uma história viva.

Este perfil foi publicado na Revista Donna, do Jornal Zero Hora deste domingo, dia 1 de agosto. As fotos são do Patrick Rodrigues.



Olê mulher rendeira...

O sol da tarde brilha a pico e um ventinho fresco se intromete pela janela entreaberta da Fortaleza de São José da Ponta Grossa. É um bálsamo no dia abafado de dezembro na Praia do Forte, no norte de Florianópolis. As paredes de pedra erguidas para proteger a Ilha do Desterro das invasões espanholas guardam uma figura singular. Acomodada em um cantinho onde a brisa é quase vento, Neli da Luz não sente calor, tédio ou cansaço. Apenas tece. Os dedos nodosos vão pra lá e pra cá, bilros pra todo lado e pronto. Assim, sem alarde, a rendeira acabou mais uma pequena obra de arte feita de fios presos a pedaços de madeira.
Desde que o antigo forte português foi restaurado pela Universidade Federal de Santa Catarina, há 18 anos, Neli senta ao lado da mesma janela, emaranhando fios e fazendo renda. Sobre a almofada, a rendeira de 56 anos tece toalhas, colchas, cobertas de mesa. Tece a trama da sua vida em forma de flores, folhas, pétalas, lágrimas. E com seu sotaque de manezinha, descreve o orgulho de ser o que é. "Sou rendeira desde os sete anos, nunca tive outra profissão".
Moradora da praia de Canasvieiras, Neli passa mais de uma hora por dia dentro dos ônibus que a levam para a Fortaleza, onde produz e expõe seu trabalho. Não tem vínculo empregatício com ninguém, não recebe salário, não tem carteira assinada. Mas agradece a oportunidade de estar ali, no patrimônio histórico visitado por tanta gente. "Ah, minha filha, quando é verão isso aqui enche de gente na minha volta. Ficam todos loucos pra saber como eu faço a renda. Daí eu explico como se faz, mostro as peças prontas. De vez em quando vendo alguma coisa também. Até canto a música das rendeiras, conhece?

Olê mulher rendeira, olê mulher rendá
Eu te ensino a fazer renda, tu me ensina a namorá"

A pele clarinha e os olhos muito azuis revelam a origem de Neli e sua renda. Nascida e criada na Praia do Forte, ela descende dos açorianos que trouxeram para o Litoral Catarinense a arte que hoje executa com maestria. Em janeiro de 1748 desembarcaram 473 pessoas na localidade do Ribeirão da Ilha. Em pouco tempo, espalharam-se pela costa de águas cristalinas e pesca farta. Além de cuidar dos filhos, da pequena roça de subsistência e da casa, as mulheres ainda ajudavam os maridos na pesca. Quando não iam elas próprias para o mar, auxiliavam no conserto e fabricação de redes. No tempo livre que sobrava _ se é que é possível imaginar algum tempo livre depois de tudo isso _ elas exercitavam a arte usada no país de seus antepassados para enfeitar as roupas e mesas da nobreza e do clero.
Embuída de uma inexplicável energia, ela cumpre a mesma rotina de suas tataravós _ com exceção da roça. O marido, Celso, é pescador e servente de pedreiro. Foi ajudando o companheiro a pescar e a virar massa e fazendo renda no tempo que sobrava que ela trouxe ao mundo sete filhos. A herança tramada na renda, no entanto, vai morrer com Neli.
"As duas filhas menores não quiseram aprender. A mais velha é habilidosa, mas preferiu descascar ostra. Dá mais dinheiro", lamenta.
Neli acredita que a facilidade de encontrar emprego remunerado está fazendo a nova geração perder o interesse pela habilidade de suas mães e avós. "As rendeiras estão ficando velhas e doentes. Quando não é a coluna a incomodar, é a vista que não funciona direito. Eu vou fazer renda enquanto enxergar. Mas só enquanto enxergar", diz Neli.
Quando mais uma velha rendeira para, uma filha, neta, sobrinha, vizinha ou amiga precisa tomar o seu lugar. No entanto, a arte dos bilros é aprendida aos poucos, no curso de uma convivência longeva. E o tempo e o interesse das jovens já não é mais o mesmo que Neli tinha quando observava sua mãe sentada à almofada, rendando.
Turistas acostumados a passear pela Avenida das Rendeiras, em Floripa, veem as pequenas casinhas com portas estreitas, de cujos marcos pendem toalhas e colchas, e imaginam que o costume está seguro entre as mulheres da Lagoa da Conceição. Neli, no entanto, alerta que aquilo é só aparência. Sem jovens rendeiras, a tradição está condenada.
A prefeitura de Florianópolis assinou, recentemente, um termo de cooperação com o Ministério da Cultura para transformar o Casarão da Lagoa no Centro de Referência da Mulher Rendeira. Depois de reformado, o prédio abrigará exposições, loja, biblioteca, centro museográfico e oficinas, para garantir o repasse desse costume.
Enquanto a capital catarinense não colhe os frutos de seu empreendimento em favor da tradição rendeira, Neli e suas pares fazem o que lhes cabe na manutenção desse legado: rendam. Nos meses de inverno, quando os turistas rareiam, Neli permanece ali, sentada na janela da Fortaleza, tecendo o estoque do próximo verão. Quando precisa ajudar o marido, bate seus bilros à noite, enquanto todos dormem. Quando a maré lhe traz amarguras, como a morte de dois filhos, lágrimas de linha fina ornam mais uma toalha. Os momentos de felicidade, como o nascimento dos seis netos, vêm bordados com flores nas roupas de bebê.
Neli da Luz é rendeira, é mãe, é mulher, é feliz. Sorri fácil e solta o verbo sem desgrudar um minuto dos bilros. Estar ali, "naquele lugar histórico e lindo", ser paparicada por visitantes, vender seu trabalho, conversar com as companheiras de ônibus, ajudar os filhos, preparar aquela estopa de peixe com o tempero que o marido adora. É essa a vida que Neli da Luz trama na simplicidade de seus fios, na delicadeza de seus guardanapos e de seu cotidiano.

sábado, 24 de abril de 2010

Revendo o invisível




Verão de 2007. Eu e o repórter-fotográfico Patrick Rodrigues voltávamos de um passeio pela Praia Brava, em Itajaí, onde produzimos uma matéria para a Revista de Verão do Jornal de Santa Catarina. Como de costume, passamos no mercado público, no centro da cidade, para tomar um café e ver o entra-e-sai de barcos e navios no Rio Itajaí-Açu, ali em frente. Foi quando vimos o gigantesco transatlântico recém chegado. Impossível não enxergar um negócio daquele tamanho. E, por sorte ou acaso, vimos também o homem invisível. E, mais incrível ainda, conversamos com ele.
O texto a seguir foi publicado no site da Revista Caros Amigos em janeiro de 2007.





O invisível que dorme no segundo andar

Texto: Patrícia Lima
Fotos: Patrick Rodrigues


O nome dele é Israel Moraes. Ou seria Ismael Soares? Ou talvez Mário Isauro? Isaltino Moreira? O nome dele não importa. Ele é um homem invisível. Mas é o único que dorme no segundo andar. De sua cama, consegue ver melhor os turistas que descem do transatlântico recém atracado no píer turístico. Mas não pode ficar ali por muito tempo observando o luxo que cruza os mares. Bastam R$ 5,00 para que sua vida, sua história e o cheiro que exala de seu corpo sujo desapareçam da vista dos turistas que descem do navio. Israel Moraes (ou seja qual for o nome dele) tem 40 anos e, atualmente, vive nos alicerces de uma construção abandonada de três andares, ao lado do píer turístico de Itajaí, em Santa Catarina. Divide o lar com outros seis mendigos, que se protegem da chuva no teto improvisado, e tem o privilégio de ser o único a dormir no andar de cima das ruínas. É que os outros estão sempre muito chapados para subir. Ninguém encrenca muito com a presença deles ali, não são violentos. Só bebem demais, todos os dias. O problema começa quando chegam os gigantescos transatlânticos. Israel conta que, em dezembro, quando o navio Insígnia chegou, a Polícia Federal logo apareceu para atrapalhar a diversão. Antes que os 800 turistas começacem a descer, o policial teria oferecido R$ 5,00 para que eles saíssem da construção. Não era bom que aparececem assim, sem mais nem menos, diante dos ricaços. Tinham que permanecer invisíveis.
A possibilidade de ver os endinheirados saindo do navio era boa, mas os R$ 5,00 do policial pareceram igualmente interessantes. Foram embora. Mas não por muito tempo. Não para muito longe.
Israel não podia perder a oportunidade de abordar uns gringos para arranjar alguns trocados para a pinga. Ganhou dez euros de um turista e pensou em rasgar o dinheiro. "Jurei que o cara tava de sacanagem, achei que o dinheiro era falso. Nunca tinha visto aquilo". Um taxista viu o dinheiro e trocou a nota por R$ 20,00. Bom negócio. Duas garrafas plásticas de pinga e mais uns trocos no bolso para o lanche. Ótimo negócio.
Assim que a televisão filmou a chegada dos ricos a Itajaí, Israel e seus amigos voltaram ao posto. Chovia e a rua era pouco acolhedora, mesmo para quem tinha o corpo aquecido pelo álcool. Enquanto os turistas compram no centro chamado de histórico, Israel sorve com prazer a cachaça que comprou com os euros dos gringos. A língua fica cada vez mais solta. A história começa a saltar dos lábios ansiosos. Ele deixa de lado a habitual conformidade com sua condição de homem invisível. Quer aparecer, quer contar sua vida.

Asas de álcool
Natural de Taguatinga e filho de um funcionário aposentado da Petrobras, Israel não fala com a família há cinco anos. No Natal sente saudade, daquelas que fazem doer o tórax. Mas a experiência ensina. Para evitar as dores, compra cachaça extra e "chapa o coco", para evitar a sofreguidão da nostalgia. Cozinheiro profissional, é capaz de preparar qualquer prato para a ceia natalina. Era. "Hoje acho que não tem mais jeito pra mim. Não consigo parar de beber".
O alcoolismo deu asas ao homem que queria conhecer o mundo, livre de compromissos e de roteiros turísticos. O dinheiro dos empregos temporários - sempre abreviados pelos sumiços provocados pela cachaça - serviu para que ele conhecesse todas as capitais brasileiras. Já viveu em vários albergues e garante que o serviço de assistência social em Itajaí é péssimo. "Os caras oferecem um dia de albergue. O que é isso? Quem consegue se erguer em um dia?" Antes de abandonar tudo, Israel bem que tentou vencer o vício. Trabalhou, fez um filho em Fortaleza, aprendeu em um curso a arte de cozinhar e de decorar mesas com esculturas de legumes. Mas o chamado do mundo era mais forte. Quando percebeu que perderia todas para a cachaça, decidiu abandonar tudo e seguir viagem, sem sequer saber para onde. E, de tanto perambular, chegou a Itajaí, de onde pode partir a qualquer momento.
No meio da conversa animada, ele relembra os tempos em que trabalhou em Porto Alegre, "melhor capital brasileira para um morador de rua". Também lembra que já recusou propostas para trabalhar em transatlânticos como aquele que estava atracado a alguns metros da construção. "Não dava, né. Como ia beber em alto mar? Iam me jogar pra fora do navio...".

Ele tem sede de quê?
Normalmente os porres de Israel não têm um motivo específico. Ocorrem simplesmente pela vontade de sentir a cachaça se misturando à saliva e ao sangue. As vezes servem para matar alguma saudade ou para esquecer o que ele mesmo diz ser o seu fim-da-linha. Mas não no dia em que o Insígnia atracou em Itajaí. Diante daquele enorme cargueiro de gente, o morador de rua tinha o quê comemorar: a visita de um navio tão bonito, o euro, os R$ 5,00, os turistas que conseguiram vê-lo. "Ô, hoje eu tô feliz. Foi um dia bem divertido". Na manhã seguinte, o Insígnia arrecadou os 800 turistas e zarpou, majestoso, nas águas do rio em que Israel dá uma mijadinha quase todos os dias. A turma da construção terá mais um período de distância da Polícia Federal, já que a tripulação dos navios de contêineres nem se importa se há mendigos nos portos comerciais. Mas a maré de transatlânticos no Litoral Catarinense está apenas começando. O brilho nos olhos e o riso fácil da turma do Israel indica que os euros, os R$ 5,00, a cachaça abundante e um mar de olhares curiosos estão por vir, para quebrar a monotonia de uma vida invisível.