domingo, 1 de agosto de 2010

Histórias e rendas nas fortalezas de Floripa







Uma reportagem é sempre um desconhecido. Não importa quanta pesquisa e produção envolveu a matéria. Quando os olhos, lentes e blocos se abrem para uma história, o novo está ali, pra surpreender a gente.

Este texto é parte de uma reportagem produzida em dezembro de 2009, sobre as fortalezas da Ilha de Santa Catarina. No meio de tantas pedras que contam histórias, encontramos uma história viva.

Este perfil foi publicado na Revista Donna, do Jornal Zero Hora deste domingo, dia 1 de agosto. As fotos são do Patrick Rodrigues.



Olê mulher rendeira...

O sol da tarde brilha a pico e um ventinho fresco se intromete pela janela entreaberta da Fortaleza de São José da Ponta Grossa. É um bálsamo no dia abafado de dezembro na Praia do Forte, no norte de Florianópolis. As paredes de pedra erguidas para proteger a Ilha do Desterro das invasões espanholas guardam uma figura singular. Acomodada em um cantinho onde a brisa é quase vento, Neli da Luz não sente calor, tédio ou cansaço. Apenas tece. Os dedos nodosos vão pra lá e pra cá, bilros pra todo lado e pronto. Assim, sem alarde, a rendeira acabou mais uma pequena obra de arte feita de fios presos a pedaços de madeira.
Desde que o antigo forte português foi restaurado pela Universidade Federal de Santa Catarina, há 18 anos, Neli senta ao lado da mesma janela, emaranhando fios e fazendo renda. Sobre a almofada, a rendeira de 56 anos tece toalhas, colchas, cobertas de mesa. Tece a trama da sua vida em forma de flores, folhas, pétalas, lágrimas. E com seu sotaque de manezinha, descreve o orgulho de ser o que é. "Sou rendeira desde os sete anos, nunca tive outra profissão".
Moradora da praia de Canasvieiras, Neli passa mais de uma hora por dia dentro dos ônibus que a levam para a Fortaleza, onde produz e expõe seu trabalho. Não tem vínculo empregatício com ninguém, não recebe salário, não tem carteira assinada. Mas agradece a oportunidade de estar ali, no patrimônio histórico visitado por tanta gente. "Ah, minha filha, quando é verão isso aqui enche de gente na minha volta. Ficam todos loucos pra saber como eu faço a renda. Daí eu explico como se faz, mostro as peças prontas. De vez em quando vendo alguma coisa também. Até canto a música das rendeiras, conhece?

Olê mulher rendeira, olê mulher rendá
Eu te ensino a fazer renda, tu me ensina a namorá"

A pele clarinha e os olhos muito azuis revelam a origem de Neli e sua renda. Nascida e criada na Praia do Forte, ela descende dos açorianos que trouxeram para o Litoral Catarinense a arte que hoje executa com maestria. Em janeiro de 1748 desembarcaram 473 pessoas na localidade do Ribeirão da Ilha. Em pouco tempo, espalharam-se pela costa de águas cristalinas e pesca farta. Além de cuidar dos filhos, da pequena roça de subsistência e da casa, as mulheres ainda ajudavam os maridos na pesca. Quando não iam elas próprias para o mar, auxiliavam no conserto e fabricação de redes. No tempo livre que sobrava _ se é que é possível imaginar algum tempo livre depois de tudo isso _ elas exercitavam a arte usada no país de seus antepassados para enfeitar as roupas e mesas da nobreza e do clero.
Embuída de uma inexplicável energia, ela cumpre a mesma rotina de suas tataravós _ com exceção da roça. O marido, Celso, é pescador e servente de pedreiro. Foi ajudando o companheiro a pescar e a virar massa e fazendo renda no tempo que sobrava que ela trouxe ao mundo sete filhos. A herança tramada na renda, no entanto, vai morrer com Neli.
"As duas filhas menores não quiseram aprender. A mais velha é habilidosa, mas preferiu descascar ostra. Dá mais dinheiro", lamenta.
Neli acredita que a facilidade de encontrar emprego remunerado está fazendo a nova geração perder o interesse pela habilidade de suas mães e avós. "As rendeiras estão ficando velhas e doentes. Quando não é a coluna a incomodar, é a vista que não funciona direito. Eu vou fazer renda enquanto enxergar. Mas só enquanto enxergar", diz Neli.
Quando mais uma velha rendeira para, uma filha, neta, sobrinha, vizinha ou amiga precisa tomar o seu lugar. No entanto, a arte dos bilros é aprendida aos poucos, no curso de uma convivência longeva. E o tempo e o interesse das jovens já não é mais o mesmo que Neli tinha quando observava sua mãe sentada à almofada, rendando.
Turistas acostumados a passear pela Avenida das Rendeiras, em Floripa, veem as pequenas casinhas com portas estreitas, de cujos marcos pendem toalhas e colchas, e imaginam que o costume está seguro entre as mulheres da Lagoa da Conceição. Neli, no entanto, alerta que aquilo é só aparência. Sem jovens rendeiras, a tradição está condenada.
A prefeitura de Florianópolis assinou, recentemente, um termo de cooperação com o Ministério da Cultura para transformar o Casarão da Lagoa no Centro de Referência da Mulher Rendeira. Depois de reformado, o prédio abrigará exposições, loja, biblioteca, centro museográfico e oficinas, para garantir o repasse desse costume.
Enquanto a capital catarinense não colhe os frutos de seu empreendimento em favor da tradição rendeira, Neli e suas pares fazem o que lhes cabe na manutenção desse legado: rendam. Nos meses de inverno, quando os turistas rareiam, Neli permanece ali, sentada na janela da Fortaleza, tecendo o estoque do próximo verão. Quando precisa ajudar o marido, bate seus bilros à noite, enquanto todos dormem. Quando a maré lhe traz amarguras, como a morte de dois filhos, lágrimas de linha fina ornam mais uma toalha. Os momentos de felicidade, como o nascimento dos seis netos, vêm bordados com flores nas roupas de bebê.
Neli da Luz é rendeira, é mãe, é mulher, é feliz. Sorri fácil e solta o verbo sem desgrudar um minuto dos bilros. Estar ali, "naquele lugar histórico e lindo", ser paparicada por visitantes, vender seu trabalho, conversar com as companheiras de ônibus, ajudar os filhos, preparar aquela estopa de peixe com o tempero que o marido adora. É essa a vida que Neli da Luz trama na simplicidade de seus fios, na delicadeza de seus guardanapos e de seu cotidiano.

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