quinta-feira, 28 de julho de 2011

A encantadora de cavalos

Reportagem publicada na revista Donna, de Zero Hora, sobre a treinadora de cavalos Denise Bicca, que trabalha em todo país a partir de sua base, na Zona Sul de Porto Alegre. Além de ter conhecido essa mulher sensacional, tive a honra de trabalhar ao lado do Kadão, uma lenda do fotojornalismo brasileiro. Inesquecível.
O vídeo a seguir foi editado pela equipe de zerohora.com e tem imagens feitas pelo senhor Ricardo Chaves, o Kadão, de quem fiquei ainda mais fã depois dessa matéria.



A encantadora de cavalos


Dentro do espaço exíguo de um redondel de madeira, a pequena mulher olha diretamente nos olhos de um gigante de mais de meia tonelada. Um simples gesto de sua mão o faz caminhar. Correr. Parar. O toque suave na pata dianteira deita um garanhão puro sangue lusitano como se fosse um cachorrinho de estimação. Ela deita-se por cima dele, conversa, brinca e finalmente o convida a levantar. E vai em sua garupa, tendo o lombo por sela e a crina por rédea. É assim que a gaúcha Denise Bicca Fernandes, de 47 anos, lida com seus animais favoritos. Com gestos suaves, muita comunicação e nenhuma violência, ela ganha a vida – e o sentido para viver – no convívio com os cavalos.
O dom impressionante que Denise demonstra no trato com animais de todos os tipos, dos mansos aos mais ariscos e traumatizados, não é, segundo ela, uma habilidade especial. Utilizando a técnica do Natural Horsemanship, ela garante que qualquer um pode repetir seus feitos. Difícil de acreditar, mas fácil de entender como ela consegue. Afinal, basta puxar um papo sobre cavalos que o olho dela brilha. Só o olho não. Toda a figura de pouco mais de um metro e meio se põe radiante para debater o assunto sobre o qual mais sabe, e mais quer saber.
Toda essa paixão já transformou Denise em uma das treinadoras mais requisitadas do país, chamada para palestras, cursos e missões de "resgate" em quase todos os Estados. Quer treinar cavalos para provas de rédea, rodeios ou competições de velocidade ou salto? Chama a Denise. Animais desobedientes, violentos, agitados, ou que já não têm mais jeito? Deixa com ela.
Sentada à sombra de uma figueira de 300 anos, na sua propriedade no bairro Lami, onde recebeu a reportagem de Donna, ela tenta contar como é simples o trato com os cavalos, mesmo os mais rebeldes.
– É tudo sobre comunicação. Os seres humanos tentam conversar na sua própria língua e ocorrem os problemas. Quando o homem aprende a linguagem do animal, consegue formar com ele uma parceria. E essa ligação é muito forte, muito bonita – emociona-se.
As palavras, no entanto, parecem não ser suficientes para contar, afinal, como é que ela faz todas aquelas proezas postadas em vídeos e textos em um blog criado para a divulgação do Natural Horsemanship e do trabalho como treinadora.
– Venham ver, vocês vão entender tudo quando olharem para o cavalo – diz.
E lá vai ela com o Quali (apelido para Qualificado do Eldorado), explicar na prática tudo o que havia dito sobre compreender a linguagem corporal do cavalo, seus sinais e o modo como interpreta o mundo à sua volta.
Apaixonada desde criança por cavalos, entrou para a escola de equitação do Cantegril, de Viamão, em 1973. Participou de competições montando cavalos que ela ajudava a treinar e, desde então, já sabia que não poderia viver longe dos animais. Em 1989, a formatura na Faculdade de Veterinária da UFRGS foi o passo definitivo para algo que já desejava desde sempre: dedicar a vida aos equinos.
Natural de Quaraí, na Fronteira Oeste, nunca teve uma rotina campeira. Filha de um juiz e uma professora de alfabetização, trouxe de berço o gosto por contar histórias – hábito que pratica hoje na internet. O pai, mecânico de aviação da FAB, conheceu a mãe, que morava em Alegrete, durante a Segunda Guerra, por correspondência. Depois de formar-se em Direito, correu para o Rio Grande atrás de seu amor. Os dois começaram assim a família em que Denise é a caçula. Aos quatro anos, quando morava em Caxias do Sul (as transferências do pai obrigavam a família a se mudar com freqüência), viu um cavalo pela primeira vez.
– Olhar o animal, tocar nele, aquilo tudo me marcou muito.
Em 2001, durante um encontro de veterinários, competidores e tratadores, em São Paulo, conheceu a técnica na qual é especialista. Desde então, dedica-se a estudar e aprimorar o método de comunicação e treinamento que rende obediência ao tratador e bem estar ao animal. Nos intervalos das palestras e cursos que ministra em todo o país, ela recebe cavalos no Centro Equestre Gallop, que montou na sua propriedade.

Terapia e sonhos a galope

Agitada, dispersiva e impaciente confessa, Denise afirma que encontrou no trabalho a terapia ideal. O contato diário com os cavalos a faz, segundo ela própria, lidar melhor com as pessoas e com si mesma.
–  Eu me irritava com facilidade. No trânsito, então, às vezes queria matar alguém. Mas eles me ensinam a ter paciência, a ser mais flexível, a funcionar em outro ritmo. Isso tudo é um baita divã – diverte-se.
Mostrar a mais gente como pode ser harmônica e produtiva a relação dos seres humanos com os cavalos é a atual empreitada de Denise. E ela tem pressa. Quer disseminar o conhecimento que acumulou em anos de trabalho com equinos, para que mais pessoas entendam o processo de comunicação com o animal e possam, assim, ter melhores resultados e proporcionar mais bem estar ao companheiro de serviço ou competições. Dou consultoria, cursos, workshops e treinamentos. Mas ainda é pouco. Meu sonho é fazer tudo isso com muito mais gente e, especialmente, com crianças que desde muito pequenas lidam com cavalos, seja em centros equestres, nas lidas campeiras ou numa família de carroceiros. Espalhar esse conhecimento é urgente.
A empolgação por contar os projetos futuros é interrompida por algo que a empolga ainda mais. É Negro, um cavalo crioulo domado e treinado por ela desde que nasceu, que chega ao redondel, já encilhado e pronto para a montaria. Ele joga bola, anda e galopa de um lado para o outro e termina o passeio sem freios ou rédeas, obedecendo somente à voz e aos movimentos do corpo de Denise. Ao final da demonstração, ela resume toda técnica ao afagar a cabeça de Negro:
– Muito bem! Que bela parceria temos, hein?

Online
Na internet, Denise é a Muié dos Cavalos. O apelido dá nome ao Blog em que ela posta vídeos demonstrando treinamentos e dicas para outros apaixonados por cavalos. A linguagem coloquial faz o leitor ouvir os sotaques e as expressões faladas no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre. É esse sotaque que Denise leva para todo o país em seus cursos e palestras ou nos bytes do blog. O endereço é http://muiedoscavalos.blogspot.com.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Meus encantos na Zona Sul

Desde que, finalmente, me mudei para Porto Alegre - a cidade em que sempre quis viver - me apaixonei pela Zona Sul da cidade. A proximidade com a orla do Guaíba, o vento gelado, as enormes figueiras e um jeitinho interiorano fazem dessa região a mais bonita e aconchegante da capital. Já tentei morar lá, mas nunca deu certo. Tudo bem. Hoje circulo bastante por lá, o que não é suficiente, mas ao menos me proporciona bons momentos.
E qual foi minha felicidade ao fazer a reportagem que ilustra a capa do Donna ZH, falando justamente sobre o meu lugar favorito nessa capital. Eu deveria explicar, afinal, o que a Zona Sul de POA tem que diferente. Não encontrei, obviamente, uma fórmula exata. Mas conversei com muita gente bacana que me deu boas pistas. Resultado: terminei a matéria ainda mais encantada por esse lugarzinho tão especial.

A foto que ilustra esse post foi feita por mim há alguns anos, pra ilustrar uma matéria que fiz para a extinta revista de bordo da Varig. A página do Donna tu acessas aqui

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dias de mercado

Aventurazinha das mais divertidas, com direito a horas de conversa com personagens únicos e o deleite com sorvete e bolinho de bacalhau dos deuses. Resultado? Esta reportagem publicada na Revista Na Poltrona de abril/2011. Texto meu, fotos do Patrick Rodrigues.

Vista geral do Mercado Público de Porto Alegre
O mercado a passos largos
O vovô cantor do Gambrinus
O mundo está no mercado público

Ali se encontra de tudo um pouco: comida, bebida, arte, cultura, diversão, identidade. Há séculos, povoados nasceram no entorno dos entrepostos comerciais que supriam a comunidade de tudo o que era necessário. Hoje, esses mercados seculares continuam sendo o coração das grandes cidades, que ainda pulsam com o mesmo vigor e simplicidade de antigamente.


Para entender a verdadeira essência das capitais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a equipe de Na Poltrona desbravou os mercados públicos de Porto Alegre e Florianópolis, em busca dos produtos e das gentes que traduzem, por meio do comércio, um pouco do que é ser gaúcho, ser catarinense, ser brasileiro no Sul deste país. Em nossa jornada pelos dois Estados, encontramos os personagens, os cheiros, os sabores, os sotaques, a alma de cada lugar.

Uma janela no tempo à beira do Guaíba

No Centro Histórico de Porto Alegre, ao lado do cais do porto, um prédio amarelo quebra a monotonia dos cinzas dos arredores. Está ali, imóvel, no meio de tanta gente que passa apressada. Inaugurado para abastecer a cidade em 1869, o Mercado Público resiste como uma janela no tempo, um parêntesis, um oásis onde passado e presente se confundem no coração de uma das maiores capitais brasileiras.
Quando o sol desponta nas manhãs frias do outono sulino, a gauchada começa a chegar para tomar o café no mercado. O cheirinho dos pães e doces emana das confeitarias e padarias que estão entre as mais antigas e tradicionais da cidade, como a Copacabana e a Pão de Açúcar. De executivos a donas de casa, todo mundo se encontra no balcão desses templos, pedindo meia dúzia de cacetinhos (nome local do pão francês) para o desjejum da família ou aguardando a saborosa recheada prensada (sanduíche feito com pão francês, presunto, queijo e manteiga e aquecido na chapa).
Para além dos ambientes perfumados pelo trigo recém assado, o mercado se revela múltiplo. Desde a inauguração, os alimentos são o foco, oferecidos ali em profusão. Nas bancas de frutas e temperos, o nativo convive com o exótico. Espécies de todo o país, como a banana-do-mato, a pitaia e o mangostim, fruta da Amazônia, convivem com o que é original das bandas do Sul, como o butiá, o figo e o araçá.
Falando em sabores nativos, é no setor de carnes que se percebe a paixão do gaúcho pela carne vermelha. Açougues oferecem, há décadas, os cortes preferidos dos churrasqueiros, como a costela de novilho (boi jovem, cuja carne é mais macia), o vazio e a maminha. Ao lado, bancas inteiras dedicam-se ao charque, carne salgada e seca ao sol, que já foi a base da economia do Rio Grande nos séculos 18 e 19.
Um empório de bebidas faz coro com as bancas que vendem alimentos, convidando o visitante a encher a sacola de ingredientes para o preparo de um jantar especial. A Banca 38 é uma das maiores adegas de Porto Alegre, oferecendo vinhos de todo o mundo e, em especial, das vinícolas riograndenses.
Enquanto os sentidos se confundem com frutas, especiarias, charques, bacalhaus e vinhos, as figuras típicas quase passam despercebidas. Mas estão sempre lá a nos lembrar de que estamos no Rio Grande do Sul, um dos estados em que a tradição é mais forte e cultuada pelo povo. É só prestar atenção para ver um gaúcho bem pilchado, vestindo bota, bombacha e lenço no pescoço, escolhendo erva mate nas muitas bancas que oferecem o produto envasado ou a granel. No Mercado público, o homem do campo – sim, os homens do campo ainda visitam a capital em busca de suprimentos – encontra o que precisa: desde os tamancos de madeira para enfrentar o frio até a cuia nova para o chimarrão, tudo se vende por aqui.
E tem muito mais: panelas de ferro e barro, facas, sementes, remédios para os animais, equipamentos para montaria, pilchas (botas, bombachas e outras peças da indumentária gaúcha), ração para os animais, utensílios para a casa, artesanato, antiguidades, feira de discos de vinil, restaurante japonês e até internet sem fio gratuita.
Diversidade religiosa nas bancas do mercado gaúcho

O coração da Ilha da Magia

Ao descer da ponte que desvela ao visitante toda a magia da Ilha de Santa Catarina, já dá para ver ao longe a silhueta do velho mercado emoldurado pelas luzes do fim da tarde. O prédio erguido no século 18 é o coração de uma cidade que cresceu devagar, de mansinho, quase no ritmo das ondas do mar que bate logo à frente. Quem busca uma tradução de Florianópolis, encontra ao atravessar o vão central deste entreposto.
A proximidade do mar não é um simples acaso no mercado de Floripa. O que começou com barraquinhas onde se vendia comida, artesanato e, especialmente, o pescado abundante em todo o litoral catarinense, é hoje um dos melhores locais do Estado para comprar frutos do mar. Os mundialmente famosos congrio e salmão estão lá, mas a grande atração são as iguarias locais, que o legítimo manezinho da Ilha sabe preparar como ninguém. Sardinhas, berbigões e ostras são abundantes em um corredor inteiro, onde funciona uma dúzia de peixarias.
Um litoral tão extenso e farto fez do povo de Florianópolis um apaixonado pelos frutos do mar. O mercado, claro, é um reflexo dessa paixão. Nas mesas dos bares que ficam lotados para o happy hour, o cardápio até tem variedade, mas os campeões de vendas são sempre os mesmos: pastel de camarão e bolinho de peixe.
No balcão do Box 32, as cachaças artesanais fabricadas em Luís Alves, no Vale do Itajaí, harmonizam com os temperos caseiros que conferem um sabor secular aos petiscos. As conservas de pimenta elaboradas sob medida para o bar completam a degustação. Antes de deixar a mesa com os sentidos repletos pelo perfume dos peixes e camarões, nos entregamos à hospitalidade dos manezinhos, que com seu sotaque cantado tão particular revelam o verdadeiro significado do apelido “Ilha da Magia”.
Em meio ao artesanato e à gastronomia, é possível testemunhar a riqueza da cultura local. Na época da Quaresma, grupos de Boi de Mamão se apresentam no vão do mercado, mantendo viva uma tradição que os primeiros habitantes de Floripa trouxeram da Ilha dos Açores. Em tempos de carnaval, um palco montado na praça faz a prévia para os desfiles das escolas de samba. As festas, manifestações populares e até os protestos tem lugar neste antigo refúgio comercial e cultural.


Protagonistas dos Mercados

Trabalhar em um mercado público pode ter conseqüências. De tanto tempo vivido nesses ambientes singulares, o personagem acaba se confundindo com o lugar, virando parte da paisagem, tornando-se um órgão pulsante desse grande organismo. É o que aconteceu com muita gente que encontramos pelo caminho. Jovens ou veteranos, eles têm o comércio correndo nas veias, bombeado pelos prédios centenários que já chamam de lar.
É o caso de Rômulo Barretos, de 27 anos, que administra, ao lado do pai, Beto, o bar mais badalado do mercado de Florianópolis, o Box 32. Fundado em 1984 para ser uma representação do que há de melhor na cidade, o local é um dos pontos mais visitados da capital catarinense. Prova são as fotos de gente famosa nas mesinhas, que compõem a decoração do local. “Cresci dentro do mercado e aprendi com o meu pai que aqui está a essência da cidade. Nosso desafio é preservar esse ponto de encontro e fazê-lo melhorar ainda mais”, comenta.
A alguns passos do Box 32, o brilho dos alumínios expostos na porta da pequena loja ofusca a história do filho de libaneses que prosperou no Mercado de Florianópolis. Fundador do Bazar Mansur, Gedeão Mansur tinha a vocação do comércio e começou vendendo artigos de armarinho no Box comprado em 1947. Pouco tempo depois, percebeu que os novíssimos utensílios de alumínio seriam bem mais rentáveis e transformou a loja em empório de artigos para a casa. “Ele chegou a vender três caminhões de alumínio em um mês”, relembra a filha Marlene Mansur de Moraes, que ao lado do marido, José, administra o negócio.
Uma grande foto do pai homenageia as origens da família e mostra aos clientes que seu Mansur permanece vivo nas lembranças guardadas nas paredes do velho mercado.
Em Porto Alegre, no atendimento do restaurante mais antigo da cidade está uma figura que sabe tudo de mercado. E de música. Jorge Alberto Oliveira, o vovô, é garçom no Restaurante Gambrinus há 40 anos. Com mais de 120 anos de idade, o local era um dos preferidos de Lupicínio Rodrigues e de toda uma geração de músicos e boêmios, a quem o vovô fazia questão de atender. Hoje, o pitoresco garçom de quase 70 anos é só alegria no serviço. Os clientes mais fiéis ou mais simpáticos são presenteados com uma canção, sempre escolhida conforme o momento, que remonta os tempos em que os autores frequentavam as velhas mesas do restaurante. A reportagem de Na Poltrona ganhou a interpretação intensa de uma das canções de Francisco Alves, o Rei da Voz, cantor carioca que fez sucesso nas décadas de 1920 a 1940 e não perdia um almoço no Gambrinus quando passava pela capital gaúcha.
Bem mais jovem que o Gambrinus – tem apenas 84 anos – é a Banca 40, que abriga personagens e a salada de fruta com nata ou sorvete mais famosa da cidade. Preparada com frutas da estação, a mistura foi a primeira invenção do português Manoel Maria Martins, em 1927. Durante a Segunda Guerra Mundial, Manoel queria saudar os europeus que se refugiaram no Rio Grande do Sul. Misturou suas delícias e deu origem à Bomba Royal, doce com pedaços de frutas, três sabores de sorvete e nata batida. Algo menos do que divino não define a taça que é a campeã de vendas.
A também portuguesa Madalena Martins, nora de Manoel e administradora da Banca 40, explica que tudo ainda é feito conforme os ensinamentos do sogro. “Nunca quis abrir filiais ou usar produtos industrializados. A gente tem que pôr a mão, né?”. A estratégia para manter um negócio familiar bem sucedido por mais de 80 anos? “É bom estar aqui e fazer parte da história de quem vem comer. Só isso”.