
Passar o dia conversando com gente, ouvindo, aprendendo e até curtindo a música feita pelo autêntico trovador gaúcho para o protesto. Eita matéria boa!
O resultado é a reportagem publicada hoje na editoria de Economia de Zero Hora. Aqui vai o texto original, sem edição. A foto é da Assessoria de Imprensa da Farsul.
O campo se une na cidade
Eles viajaram por quase quatro horas para protestar. Não estão muito acostumados com manifestações, assinatura de documentos, discursos de políticos, promessas e cobranças. Em suas propriedades, no interior de Sobradinho, Ivo Busatto e Elias Puntel se ocupam de fazer o que sabem: plantar soja, milho, feijão e fumo. Mas, nos últimos anos, os sucessivos prejuízos com a lavoura os fizeram pensar que precisavam ser ouvidos. Assim foram parar entre centenas de produtores rurais de todos os tamanhos, culturas e regiões do Estado, que se reuniram ontem na Praça Saint Pastous, diante da sede da Farsul, para comunicar sua insatisfação.
Ao lado de grandes do agronegócio gaúcho, como Armando Chaves Garcia de Garcia, pecuarista e produtor de arroz e soja, ou Jorge Rodrigues, do leite, os dois vieram à capital pedir o que consideram essencial e urgente para a manutenção da atividade no campo: seguro para cobrir os prejuízos provocados pelas mudanças climáticas, como estiagem de 2005; mais renda, o que se obtém com insumos mais baratos e melhores preços de venda da produção; e solução para o passivo já acumulado pelos produtores, que estão endividados e não conseguem quitar os débitos.
Busatto, proprietário de 80 hectares, deve R$ 200 mil ao Banco do Brasil desde 2004. Para rolar a dívida, já vendeu máquinas e contraiu novos empréstimos. Puntel, dono de uma pequena propriedade de 14 hectares, deve os mesmos R$ 200 mil, fruto da compra de um trator e dos sucessivos financiamentos que precisou contrair para adquirir insumos. Em defesa deles, entidades como Federarroz, Fecoagro, Aprosoja e Fetag se uniram ao Sistema Farsul para organizar o protesto que ocorreu no asfalto da capital, mas em tudo lembrou a realidade rural.
Durante a manhã, o chimarrão quente espantou o frio e abriu o apetite enquanto lideranças do setor, políticos e candidatos faziam discursos. Quem concorre a um cargo eletivo no próximo pleito se comprometeu com a causa de Busatto, Puntel e todos os outros que estavam ali desde cedo. Quem lidera entidades de classe, alertou para a importância do voto, instrumento capaz de mudar, por meio da política, a situação do campo.
- O mesmo homem do campo que sustenta a economia brasileira não consegue cumprir seus compromissos, porque não há renda para o produtor, independente do tamanho. Devemos corrigir essa situação com o voto - alertou Carlos Sperotto, presidente da Farsul.
Depois do carreteiro saboreado em plena praça, multidão e carro de som tomaram uma das pistas da Avenida Loureiro da Silva, em direção ao prédio do Ministério da Agricultura. Ivan Busatto e Elias Puntel caminharam ao lado de gente que nem conheciam, na esperança de obter, ao fim da marcha, alguma garantia. Busatto precisa mandar a filha mais velha para a faculdade, mas não vê jeito. Em 2003, a prestação da colheitadeira lhe custava 700 sacas de soja. Hoje, a máquina lhe toma, por ano, 1,1 mil sacas - o que não deixa folga no orçamento. Já Puntel não quer entregar a terra recém adquirida para cobrir o que deve ao banco. A safra deveria ser suficiente para as prestações e o sustento da família. No entanto, o preço baixo das commodities o obriga a escolher o que pagar.
O superintendente do Ministério da Agricultura no Rio Grande do Sul, Francisco Signor, recebeu o documento assinado durante a manifestação e falou à multidão que se aglomerou na porta do prédio, garantindo o envio da carta ao ministro da pasta, à Casa Civil e à Presidência da República. Será o primeiro passo para nacionalizar o movimento, como querem as entidades organizadoras.
- Foi uma manifestação ordeira e significativa, que representa uma mobilização que não termina hoje. Não é aceitável que tenhamos cada vez mais produção e menos renda no campo - ressaltou Signor.
Ainda na tarde de ontem, a direção da Farsul reuniu-se com o Banrisul, para pleitear prorrogação da dívida dos produtores sem a necessidade de autorização do Banco Central. Também foi marcada para o próximo dia 17 uma reunião na Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), na qual será oficializado um documento nacional com reivindicações de todos os estdos.
Depois disso, fim de protesto. Grandes e pequenos, rurais e urbanos, todos foram para casa. Um ônibus fretado em Sobradinho aguardava por Ivo Busatto e Elias Puntel no estacionamento do Parque da Harmonia. Enquanto as garantias firmadas ontem não viram realidade, eles voltam ao campo para fazer o que realmente sabem: produzir.
