quinta-feira, 25 de novembro de 2010

All my Loving to Paul McCartney

Close your eyes and I’ll kiss you
Tomorrow I‘ll miss you
Remember I’ll always be true…
Quando ouvi esses versos no meio da gritaria, minha ficha caiu. Era ele mesmo que estava ali, na minha frente, cantando e tocando seu contrabaixo ao contrário. Com as mesmas botinas de salto quadrado, o mesmo terninho (com o toque de um roxo ousado, é verdade), o mesmo cabelo, os mesmos olhos, a mesma voz inebriante. Era Paul McCartney tocando pra mim. Era o meu dream came true em pleno Beira Rio, numa noite quente de novembro. A Day in The Life.

Não me lembro quando conheci Beatles. Como lá em casa sempre se ouviu muita música, eram LPs e fitas que rodavam de tudo, inclusive eles. Sei bem, no entanto, quando comecei a me apaixonar. Eu tinha 12, 13 anos. Comprava os discos com a mesada que ganhava trabalhando na farmácia com meu pai, nas férias. Enquanto a galera da escola escutava sei lá o quê, lá estava eu, vidrada na velharia. Para entender o que cantavam, quis por que quis estudar inglês. O primeiro livrinho de cifras pra tocar violão, óbvio, foi um especial dos caras. No meu aniversário de 15 anos (na época se fazia 15 anos...), a trilha sonora foi uma só.

- Pai, diz pro cara do som que tem que tocar Beatles. De qualquer maneira!

No momento mais animado da festa, Twist and Shout a todo volume. No vídeo que reproduzia o evento, The Long and Winding Road me acompanhava em câmera lenta.

Entre minhas paixões juvenis, Paul McCartney foi a primeira. Ok, eu sabia que ele não era nenhum Tom Cruise, mas não podia deixar de suspirar pela voz que cantava Till There Was You repetidas vezes no toca-disco do meu quarto. Admirava John, simpatizava com George, Ringo estava ali, tudo bem, mas era Paul que tinha All My Loving. Desde sempre, foi ele o meu beatle favorito.

Na adolescência, outros amores me conquistaram. Guns‘n Roses, U2, rock brasileiro, folclore latino, tudo se misturava aos hormônios dos meus 17 anos. Mas nunca houve caso de passar batida por uma música dos Beatles. O coração sempre disparou.

Ao virar adulta e poder planejar o que fazer com os parcos trocados que o ofício de jornalista me proporciona, tinha um propósito: preciso ver Paul McCartney. Quando vier ao Brasil enfrento o Maracanã lotado. Se não vier, bem, um dia economizo e Londres que me aguarde. Felizmente, não precisou. Ele veio até Porto Alegre me encontrar.

E eis que assim chegou o momento sublime que vivi no último dia 7. Foram sete horas de fila, calor escaldante, cansaço. Mas nada poderia diminuir um milímetro da emoção de ver o maior músico de todos os tempos subir naquele palco, lindo como nos meus sonhos, para tocar, falar português – e gauchês!, fazer piadinhas, dançar e arrebatar 52 mil corações.

O responsável pela minha beatlemania estava lá, de binóculo em punho, ao meu lado na arquibancada. Depois de muito argumento, convenci meu pai a ir junto. Nada mais justo do que dividir esse momento com quem, afinal de contas, me apresentou o astro daquele espetáculo. Ele não dançou, não gritou, não chorou como eu. Mas dava pra ver o sorriso quando a banda soltava as primeiras notas de alguma velha canção, que lhe embalou a juventude. Day Tripper, um balanço tímido de cabeça. Paperback Writer, uma embaladinha no corpo. Ao refrão de Hey Jude nem ele resistiu. Só ele sabe das lembranças guardadas naquele na-na-na...

Para a noite ficar mais do que perfeita, faltaram apenas as pessoas que gostariam tanto quanto eu de estar ali. Minha irmã, a quem transmiti o vírus na infância e que só pode compartilhar Back in the USSR pelo telefone enquanto voltava pra casa de ônibus. Meu marido, que comprou o ingresso mas, por ser tão bacana, mandou o sogro. Minha amiga Zeneida, tão fanática quanto eu – não sei quem contaminou quem neste caso. Fernanda, minha prima, com quem dançava até cansar nas festas da família. Minha mãe...

Entre as lágrimas pela presença e os vazios das ausências em um estádio lotado, o show chegou ao fim. Hoje, mergulhada nos meus prazos e compromissos, ainda consigo ouvir a voz dele... Escrevi essa música para minha gatinha Linda, mas, esta noite, ela é para todos os namorados... and when I go away I know my heart can stay with my love... ainda vejo o vento balançando de leve os seus cabelos, I give her all my love, that’s all I do... e penso que virou realidade tudo o que um dia eu cantei... and hope that my dreams will come true.