sábado, 24 de abril de 2010

Revendo o invisível




Verão de 2007. Eu e o repórter-fotográfico Patrick Rodrigues voltávamos de um passeio pela Praia Brava, em Itajaí, onde produzimos uma matéria para a Revista de Verão do Jornal de Santa Catarina. Como de costume, passamos no mercado público, no centro da cidade, para tomar um café e ver o entra-e-sai de barcos e navios no Rio Itajaí-Açu, ali em frente. Foi quando vimos o gigantesco transatlântico recém chegado. Impossível não enxergar um negócio daquele tamanho. E, por sorte ou acaso, vimos também o homem invisível. E, mais incrível ainda, conversamos com ele.
O texto a seguir foi publicado no site da Revista Caros Amigos em janeiro de 2007.





O invisível que dorme no segundo andar

Texto: Patrícia Lima
Fotos: Patrick Rodrigues


O nome dele é Israel Moraes. Ou seria Ismael Soares? Ou talvez Mário Isauro? Isaltino Moreira? O nome dele não importa. Ele é um homem invisível. Mas é o único que dorme no segundo andar. De sua cama, consegue ver melhor os turistas que descem do transatlântico recém atracado no píer turístico. Mas não pode ficar ali por muito tempo observando o luxo que cruza os mares. Bastam R$ 5,00 para que sua vida, sua história e o cheiro que exala de seu corpo sujo desapareçam da vista dos turistas que descem do navio. Israel Moraes (ou seja qual for o nome dele) tem 40 anos e, atualmente, vive nos alicerces de uma construção abandonada de três andares, ao lado do píer turístico de Itajaí, em Santa Catarina. Divide o lar com outros seis mendigos, que se protegem da chuva no teto improvisado, e tem o privilégio de ser o único a dormir no andar de cima das ruínas. É que os outros estão sempre muito chapados para subir. Ninguém encrenca muito com a presença deles ali, não são violentos. Só bebem demais, todos os dias. O problema começa quando chegam os gigantescos transatlânticos. Israel conta que, em dezembro, quando o navio Insígnia chegou, a Polícia Federal logo apareceu para atrapalhar a diversão. Antes que os 800 turistas começacem a descer, o policial teria oferecido R$ 5,00 para que eles saíssem da construção. Não era bom que aparececem assim, sem mais nem menos, diante dos ricaços. Tinham que permanecer invisíveis.
A possibilidade de ver os endinheirados saindo do navio era boa, mas os R$ 5,00 do policial pareceram igualmente interessantes. Foram embora. Mas não por muito tempo. Não para muito longe.
Israel não podia perder a oportunidade de abordar uns gringos para arranjar alguns trocados para a pinga. Ganhou dez euros de um turista e pensou em rasgar o dinheiro. "Jurei que o cara tava de sacanagem, achei que o dinheiro era falso. Nunca tinha visto aquilo". Um taxista viu o dinheiro e trocou a nota por R$ 20,00. Bom negócio. Duas garrafas plásticas de pinga e mais uns trocos no bolso para o lanche. Ótimo negócio.
Assim que a televisão filmou a chegada dos ricos a Itajaí, Israel e seus amigos voltaram ao posto. Chovia e a rua era pouco acolhedora, mesmo para quem tinha o corpo aquecido pelo álcool. Enquanto os turistas compram no centro chamado de histórico, Israel sorve com prazer a cachaça que comprou com os euros dos gringos. A língua fica cada vez mais solta. A história começa a saltar dos lábios ansiosos. Ele deixa de lado a habitual conformidade com sua condição de homem invisível. Quer aparecer, quer contar sua vida.

Asas de álcool
Natural de Taguatinga e filho de um funcionário aposentado da Petrobras, Israel não fala com a família há cinco anos. No Natal sente saudade, daquelas que fazem doer o tórax. Mas a experiência ensina. Para evitar as dores, compra cachaça extra e "chapa o coco", para evitar a sofreguidão da nostalgia. Cozinheiro profissional, é capaz de preparar qualquer prato para a ceia natalina. Era. "Hoje acho que não tem mais jeito pra mim. Não consigo parar de beber".
O alcoolismo deu asas ao homem que queria conhecer o mundo, livre de compromissos e de roteiros turísticos. O dinheiro dos empregos temporários - sempre abreviados pelos sumiços provocados pela cachaça - serviu para que ele conhecesse todas as capitais brasileiras. Já viveu em vários albergues e garante que o serviço de assistência social em Itajaí é péssimo. "Os caras oferecem um dia de albergue. O que é isso? Quem consegue se erguer em um dia?" Antes de abandonar tudo, Israel bem que tentou vencer o vício. Trabalhou, fez um filho em Fortaleza, aprendeu em um curso a arte de cozinhar e de decorar mesas com esculturas de legumes. Mas o chamado do mundo era mais forte. Quando percebeu que perderia todas para a cachaça, decidiu abandonar tudo e seguir viagem, sem sequer saber para onde. E, de tanto perambular, chegou a Itajaí, de onde pode partir a qualquer momento.
No meio da conversa animada, ele relembra os tempos em que trabalhou em Porto Alegre, "melhor capital brasileira para um morador de rua". Também lembra que já recusou propostas para trabalhar em transatlânticos como aquele que estava atracado a alguns metros da construção. "Não dava, né. Como ia beber em alto mar? Iam me jogar pra fora do navio...".

Ele tem sede de quê?
Normalmente os porres de Israel não têm um motivo específico. Ocorrem simplesmente pela vontade de sentir a cachaça se misturando à saliva e ao sangue. As vezes servem para matar alguma saudade ou para esquecer o que ele mesmo diz ser o seu fim-da-linha. Mas não no dia em que o Insígnia atracou em Itajaí. Diante daquele enorme cargueiro de gente, o morador de rua tinha o quê comemorar: a visita de um navio tão bonito, o euro, os R$ 5,00, os turistas que conseguiram vê-lo. "Ô, hoje eu tô feliz. Foi um dia bem divertido". Na manhã seguinte, o Insígnia arrecadou os 800 turistas e zarpou, majestoso, nas águas do rio em que Israel dá uma mijadinha quase todos os dias. A turma da construção terá mais um período de distância da Polícia Federal, já que a tripulação dos navios de contêineres nem se importa se há mendigos nos portos comerciais. Mas a maré de transatlânticos no Litoral Catarinense está apenas começando. O brilho nos olhos e o riso fácil da turma do Israel indica que os euros, os R$ 5,00, a cachaça abundante e um mar de olhares curiosos estão por vir, para quebrar a monotonia de uma vida invisível.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Princesinha aos 102




As unhas pintadas com esmalte cor-de-rosa claro arrematam uma mão de dedinhos tortos e pele manchada. Os lábios cintilam com a cor delicada de um batom que se destaca no rosto opaco. Os cabelos exibem um branco vibrante, que ilumina toda a pequena figura de pouco mais de um metro e meio que entra na sala com passos arrastados e lentos. Ela não tem pressa. Mas quando finalmente chega, seu perfume de velhinha invade a sala, sua estampa meiga desarma, seu sorriso tímido conquista. E, finalmente, sua idade impressiona. Parece 75, 80 até, mas lá se vão 102.
Ela é Jurema Chiappetta Verney, moradora da Rua Tiradentes, no Centro de Lavras do Sul, cidade de oito mil habitantes no coração da Campanha Gaúcha. Dentro de um enorme casarão erguido no início do século 20, vive a senhora mais idosa do local. Ao saber de sua existência, fui logo construindo minhas suposições e imaginando que linda reportagem faria sobre uma mulher criada no meio rural, avessa às modernidades, que venceu os anos sem ser tocada pelo progresso. Engano. Dona Jurema me desmontou. E me reconstruiu.
A vida desta mulher em nada lembra a mini-série A Casa das Sete Mulheres, tampouco nos remete à tradição rural, das matriarcas, das avós que recebiam pilhas de netos com os tachos cheios de doces. Mesmo assim, sua trajetória se confunde com a história de Lavras do Sul.
Filha de um imigrante italiano e de uma herdeira de fazendeiros gaúchos, ela foi a primeira dos muitos irmãos a nascer no casarão erguido pelo pai – o tal casarão da rua Tiradentes, que ainda hoje ocupa um quarteirão inteiro. A família estabeleceu-se ali para viver do comércio. Aqueles eram dias de prosperidade, já que a cidade vivia o auge da exploração do ouro. A extração começou por volta de 1790, quando as primeiras pepitas foram descobertas nas margens de um arroio. Nesse tempo, o território ainda pertencia às cidades de Caçapava do Sul e Bagé.
A notícia do ouro logo se espalhou, trazendo gente de todos os cantos e fazendo crescer ali uma povoação com atividade econômica intensa. Em 1882, Lavras do Sul (o nome lavras significa terreno ou lote destinado à mineração) separou-se de Caçapava. Foi nessa economia fervilhante que o pai de Dona Jurema se estabeleceu como comerciante. “Ele tinha uma espécie de supermercado, vendia de tudo. E a moeda mais comum não era dinheiro, não. Era ouro”, relembra.
A menina cresceu vendo o pai pesar as pepitas na balança de precisão que fazia as vezes de caixa registradora. No lugar de ficar em casa com as tias aprendendo a bordar, ela preparava um lanche com “gasosa” e sanduíches e ia com a família observar os trabalhadores do garimpo aos finais de semana. A educação começou em Lavras, na escola municipal, mas logo migrou para o internato das Irmãs de São José, em Pelotas, o que havia de melhor em termos de ensino para moças na sua época. Quando ia visitar a família, voltava com pequenos pedacinhos de ouro para presentear as melhores amigas pelotenses.
Ao casar, não virou uma dona de casa, simplesmente. Mudou-se para Porto Alegre com o marido e foi nomeada professora pelo então governador Flores da Cunha. Alfabetizou uma legião de portoalegrenses e chegou a ser diretora de escola. Até hoje fala da capital com propriedade, apontando precisamente locais, nomes de ruas, pessoas que conheceu, que ensinou a ler. “Nunca entrei na sala de aula com preguiça”, orgulha-se.
Os anos passaram, mas Dona Jurema ainda conserva, no cotidiano, os ares e os costumes da princesinha que forjou-se na juventude. No casarão onde nasceu e vive até hoje ela preserva, com zelo maternal, as recordações da família em forma de móveis, louças, fotos, livros. Tudo está como no tempo de seus pais. Ou pelo menos quase tudo. Na parte da casa escolhida por ela como “seus aposentos”, algumas reformas garantem o maior conforto, como rebaixo em gesso, ar condicionado e banheiro adaptado para evitar quedas.
Como os estereótipos não são, mesmo, uma característica de Dona Jurema, a ingestão diária de frutas e legumes é a única parte que repete outras receitas de longevidade. “Eu janto todos os dias e não durmo cedo, pois desde moça gosto mais do sono da manhã. Nunca fiz uso do leite, mas como tudo o que tenho vontade. E não tenho dodói”, afirma. Sobre a vaidade, evidente no cuidado com que arrumou-se para receber os desconhecidos visitantes, ela não tem meias palavras: “sou vaidosa sim, mesmo com 102 anos. Acho que a gente tem que dar uma ajudinha pro tempo, né?!?”.
Para manter ativa a memória ela não faz nada que não fizesse desde a juventude. Lê jornais todos os dias, especialmente as páginas de economia, assunto pelo qual tem especial interesse. Vai ao banco com frequência tratar com o gerente sobre suas aplicações financeiras e faz questão de administrar pessoalmente os bens que possui. Também supervisiona o trabalho dos empregados que a assistem e faz questão de ter com eles uma relação fraterna e generosa. Por fim, não deixa de lado as obrigações na igreja, com seu grupo de orações. Até o salão paroquial da Matriz de Santo Antônio tem o seu nome.
Ao longo da conversa, a timidez daquela pequena senhora vai dando lugar a um momento de conteúdo secular, que mais parece uma viagem no tempo. Só volto a 2010 quando preciso deixar o passado para falar mais alto, para que o aparelho auditivo de minha interlocutora consiga captar o som da minha voz e transforma-lo em uma nova pergunta. E de novo ela me transporta para um zigue-zague no tempo, contando das vezes que foi ao Rio de Janeiro e à Bahia, visitar as irmãs. No princípio, embarcava no navio italiano Netúnia, no Porto de Rio Grande, e desbravava a costa do Atlântico. Já idosa, fazia as mesmas viagens de avião. Com o olhar um pouco mais sombrio, lembra da última viagem aérea que fez, há quatro anos, para o funeral da irmã no Rio. “Não quero mais viajar, não quero mais voar de avião. Pelo menos por enquanto”.
Dona Jurema foi casada por 30 anos com o rapaz que foi buscá-la em Lavras do Sul e a levou para viver em Porto Alegre. Não teve filhos. O marido morreu nos anos 70 e ela nunca mais interessou-se por homem algum. Já viúva, voltou a morar na terra natal, para cuidar de uma irmã doente. Ela não fala sobre isso, apenas responde brevemente às minhas insistentes perguntas. Vejo o semblante um pouco mais triste, decido mudar logo de assunto. Prefiro o sorriso, que roubo de vez em quando questionando sobre as aventuras de outrora. A sobrinha, Maria José, que mora na Capital e visita a tia regularmente, a faz lembrar de coisas curiosas, pergunta sobre pessoas e fatos, geralmente é corrigida por Dona Jurema por ter errado uma data, um nome, um acontecimento. A memória, nesse caso, melhorou com o tempo.
Já desliguei a câmera, já fechei o bloco, já prometi ir embora umas cinco vezes. Já tirei uma foto com Dona Jurema, já trocamos endereços, já prometi escrever. Sim, escrever uma carta, por que o computador foi uma das poucas coisas que intimidou a anciã. São 13h. O almoço já está pronto, esperando por ela na mesa da gigantesca cozinha do casarão. Preciso ir embora, mas a conversa custa a terminar. Vontade de ficar para ouvir mais. Um abraço, uma promessa de voltar. A porta se fecha atrás de mim deixando, do lado de dentro, uma velhinha sorridente e otimista aos 102. E, do lado de fora, uma repórter cheia de saudade.