"Os irmãos Ramil sempre estiveram presentes na minha vida. Talvez os mais velhos, Kleiton e Kledir, com mais frequencia, e o caçula, Vitor, com mais intensidade. São dele algumas das músicas mais lindas que conheço, como Estrela Estrela, Semeadura e Deixando o Pago. Sendo assim, ficou difícil separar a repórter da fã no momento de entrevistá-lo. Já havia conversado com ele para o Segundo Caderno de Zero Hora há coisa de uns dois, três anos. Mas por telefone. Somente formalidades. Ir até sua casa, em Pelotas, era para mim encantador e assustador ao mesmo tempo. Encantador por que aquela é a minha região, praticamente minha casa. Sou natural de Rio Grande e, como tal, tenho muita intimidade com a vizinha Pelotas. Além disso, fiz faculdade lá. É assustador por que Vitor é um sujeito cheio de lendas em torno de si: introspectivo, complicado, fechadão, maniático, antipático.
Felizmente para a repórter e, mais ainda, para a fã, a visita e a conversa correram tranquilas como o papo de bons e velhos conhecidos. Ele, realmente, é meu velho conhecido. Já eu... Chegamos, eu e o fotógrafo Marcel Ávila, em uma tarde ensolarada e morna, linda para um dia de outono na Zona Sul do Estado. Vitor nos aguardava com café recém feito. Entramos no casarão em que ele mora com a mulher, Ana Ruth, que infelizmente não estava em casa. Logo nos deparamos com aquela pilha de caixas em que estavam os CDs e livros que ele deveria autografar. Quase escondiam o baita piano que ele tem na sala. Começamos a papear. Sabe aquele cara taciturno, calado? Não sei quem é. Mas não é Vitor Ramil. Ele é falante, simpático e solícito, parece até que gosta de dar entrevista.
Depois de horas, meio envergonhada pelo clichê, propus que déssemos uma voltinha por Pelotas, para fotografias e mais conversa. Na hora. E lá fomos nós, nos banhando na luz oblíqua que deixa tudo mais bonito lá na Zona Sul, ouvindo as histórias que nosso anfitrião não parava de nos contar.
Ao parar o carro à beira Canal São Gonçalo, na região portuária, Vitor encontra um sobrinho. Dá umas palavras com o guri, que está ali lagarteando e tomando mate com os amigos. Na volta, digo que aquela visão me fez lembrar que não havia trazido minha mateira de Porto Alegre e não tinha chimarrão. Ai que vontade...
- Vai ali e pede um mate pros guris, enquanto a gente faz umas fotos ali...
- Será?
- Vai ali, parece que tá bom aquele mate...
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| Vitor em Pelotas, a sua Satolep. A foto é da SatolepPress |
Ao final da tarde, deixamos Vitor de volta na porta de casa. Ainda deu tempo de comentar com ele que aquela se parecia muito com a casa da minha avó, em Rio Grande, comprida, cheia de cômodos e com grandes janelas. Também lamentei não ter conhecido o Mango, o dálmata de estimação. Já não era mais um dos meus músicos favoritos, nem o entrevistado para a pauta do Caderno Cultura. Era um velho conhecido.
- Querem tomar mais um café?
Poderia ser a oportunidade de estar um pouco mais no casarão, em companhia daquele que eu deveria descrever, dias depois. Mas fiquei com receio do convite ter sido só uma cordialidade. Já estava virando fã de novo.
Nos despedimos com ele pedindo cuidado com as imagens que fossemos usar e desejando nos rever, muito simpático.
No carro já em movimento, descendo a Dr. Amarante em direção do centro da cidade, eu e o Marcel nos olhamos e fizemos o único comentário que a emoção nos permitia:
- Tchê, mas foi melhor do que a encomenda!
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