Mas, como tudo o que é bom se termina, dizia um velho ditado... o meu silêncio também acabou-se. Ao menos por hoje. Compartilho com quem interessar possa uma matéria deliciosa que fiz para a Revista Donna, de Zero Hora - que sempre rende meus frilas favoritos. O texto é resultado de uma conversa de mais de duas horas com a enóloga portuguesa Filipa Pato, sensação mundial pelos rótulos que tem produzido na região da Bairrada.
Uma mulher simples, verdadeira, divertida e muito apaixonada. Sem roupas caras, sem maquiagem e sem se achar uma celebridade. A conversa foi das melhores, parecia que já nos conhecíamos há tempos. Tá, me desculpem os jornalistas mais experientes... às vezes tenho esses acessos de amor pelas minhas fontes. Me deixem.
Como somos todos filhos de Deus até alguém prove o contrário, degustamos um espumante ao final da entrevista. O 3B, rótulo escolhido por ela para o momento, foi, sem sacanagem, o melhor espumante que já tomei.
Bom, dito isso... aí está o texto e a Filipa. E eu volto ao silêncio, sabe Deus até quando.
O jeitinho Filipa de ser
Depois de uma maratona de jantares, entrevistas,
harmonizações e palestras em Brasília, Vitória, São Paulo e Curitiba, a enóloga
portuguesa Filipa Pato, sensação do momento no mundo dos apaixonados pela bebida,
chega a Porto Alegre um pouco cansada, é verdade, mas pronta para mais uma
entrevista.
- Queres descansar um pouco, comer alguma coisa
antes de começarmos? – pergunto, com receio de encontrar uma interlocutora
pouco disposta, como é o caso de muitas famosas por aí.
- Não, não te preocupes. Almocei bem, podemos
conversar. Podemos já falar dos vinhos agora mesmo – diz ela, com o semblante
restabelecido por alguns goles de água e pela possibilidade de discorrer sobre
sua grande paixão.
Ela sempre conviveu com uma relativa fama devido aos
vinhos produzidos pelo pai, Luís Pato, posicionados muitas vezes entre os
melhores de Portugal. Mas foi com seus próprios rótulos que Filipa alcançou
renome internacional, especialmente depois de ser reconhecida, em 2011, como
enóloga do ano pela prestigiada revista alemã Feinschmeker. A convite da
importadora Porto a Porto, que revende seus rótulos por aqui, a enóloga ficou
alguns dias em solo gaúcho divulgando suas criações.
A mulher moderna com ares de celebridade que espero
encontrar naquela tarde, capaz de transcender os limites dos feitos do pai para
brilhar sozinha no concorrido mundo do vinho, é apenas uma ilusão. Os traços
marcantes do rosto, fruto dos genes portugueses, estão ali sem máscaras. Nem
uma gota de maquiagem tira o foco dos olhos puxadinhos e das sobrancelhas
fartas – cultivadas, é claro, longe das pinças. É pequena, veste-se com
simplicidade, usa poucos acessórios. Os 37 anos escondem-se no bom humor e na
pele saudável, salvo em alguns quase imperceptíveis fios de cabelo branco. Como
uma metáfora de si mesma na pele da produtora de vinhos, ela é o que é, sem
disfarces. Tudo o que importa está na essência, no interior da garrafa.
De cosmopolita e moderna, Filipa também tem apenas o
necessário à profissão. Já viajou o mundo todo provando vinhos e, mais
recentemente, divulgando seus produtos. Depois do nascimento dos filhos,
Francisco, três anos, e Fernão, 11 meses, deixa a propriedade em que mora, na
região da Bairrada, centro de Portugal, apenas para promover seus vinhos (o
Brasil e a Inglaterra são os principais destinos) e para passar temporadas na
terra do marido, a Bélgica.
Para mostrar ao mundo sua capacidade, Filipa
precisou libertar-se do pai. Isso não significou, no entanto, um rompimento com
tudo o que havia aprendido. Ao conhecimento adquirido pela família, que faz
vinhos na Bairrada há muitas gerações, ela somou a técnica obtida no curso de
engenharia química na Universidade de Coimbra e a experiência acumulada mundo
afora. Estava formada assim uma das dez enólogas mais influentes de Portugal.
Apesar da aura de modernidade, tradição é o que
realmente importa. Tanto que seu slogan é “Vinhos Sem Maquilhagem”. Assim como
ela, o vinho que nasce de suas sensações não leva qualquer tipo de aditivo para
que se estabilize. Nem os vinhedos são tratados com agrotóxicos. Depois de
fermentado, passa pouco tempo estagiando em barricas de madeira.
- A madeira tem que ser usada com muita cautela,
pois é a moldura do vinho. Serve apenas para realçar a arte que vem de dentro,
da característica revelada pelas uvas – garante.
Morar na terra natal, preservar o velho jeito de
fazer vinhos, usar castas autóctones da Bairrada como baga e bical e até
batizar os filhos com nomes que, segundo ela, são clássicos caindo em desuso em
Portugal revelam uma personalidade apegada a raízes, tradições. Talvez por isso
os sorrisos sejam mais fartos ao comentar seu novo projeto. Recentemente, comprou
uma propriedade que, na sua infância, era arrendada pela avó para plantar uvas
e elaborar vinhos. Com a crise na Europa, muitos vinhedos estão sendo vendidos,
para sorte de gente como Filipa.
- Ali há vinhas velhas, produzindo muito bem. Vou
fazer uma reforma para acomodar as barricas no subsolo e construir uma área
para degustação. Agora quero que me visitem – planeja.
Com seus rótulos comercializados em 15 países e uma
produção que não ultrapassa as 150 mil garrafas por ano, Filipa quer continuar controlando
o processo, garantindo a qualidade e ainda tendo tempo para os filhos. Eles,
aliás, foram os sonhos que mais lhe custaram sacrifícios. Acostumada a beber,
pelo menos, uma taça de vinho todos os dias, ela se viu impedida de praticar o
hábito que cultivou desde muito cedo por prazer e profissão.
Às gargalhadas, ela representa o diálogo que teve
com o médico na primeira consulta do pré-natal.
- Olhe, aí tem piada, veja. Fui a um médico que
sabia ser apreciador de vinhos, na esperança que ele me deixasse beber só um
pouco. Mas ele logo me disse:
- Não podes beber nada!
- Nada?
- Nada!
- Tive que trocar de médico!
O problema foi resolvido com uma médica belga que,
sabendo da profissão de Filipa, liberou um cálice diário depois do primeiro
trimestre de gravidez.
Para estar mais tempo junto às vinhas, na companhia
dos filhos e do marido, Filipa viaja cada vez menos e não tem a menor intenção
de expandir os negócios, cultivando uvas e fazendo vinhos em outros locais da
Europa ou do mundo. Talvez com uma exceção.
- Provei um vinho que me agradou muito, feito com
castas portuguesas na Campanha Gaúcha. Não conheço esta região, mas me
interessa muito. Pelo que provei, talvez a Campanha fosse o único lugar do
mundo em que eu pensaria em fazer vinhos fora da Bairrada. Quem sabe, não é?
Quem sabe, Filipa?



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