quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Há quanto tempo...

Admito. Sou uma blogueira sem a mínima vocação. Sim, por que somente a falta completa de qualquer sentido vocacional explica um blog que fica um ano sem atualizações. Eu sei que não tenho nada de tão interessante assim pra dizer, mas pô... um ano! É brabo!

Mas, como tudo o que é bom se termina, dizia um velho ditado... o meu silêncio também acabou-se. Ao menos por hoje. Compartilho com quem interessar possa uma matéria deliciosa que fiz para a Revista Donna, de Zero Hora - que sempre rende meus frilas favoritos. O texto é resultado de uma conversa de mais de duas horas com a enóloga portuguesa Filipa Pato, sensação mundial pelos rótulos que tem produzido na região da Bairrada.

Uma mulher simples, verdadeira, divertida e muito apaixonada. Sem roupas caras, sem maquiagem e sem se achar uma celebridade. A conversa foi das melhores, parecia que já nos conhecíamos há tempos. Tá, me desculpem os jornalistas mais experientes... às vezes tenho esses acessos de amor pelas minhas fontes. Me deixem.

Como somos todos filhos de Deus até alguém prove o contrário, degustamos um espumante ao final da entrevista. O 3B, rótulo escolhido por ela para o momento, foi, sem sacanagem, o melhor espumante que já tomei.

Bom, dito isso... aí está o texto e a Filipa. E eu volto ao silêncio, sabe Deus até quando.


O jeitinho Filipa de ser

Depois de uma maratona de jantares, entrevistas, harmonizações e palestras em Brasília, Vitória, São Paulo e Curitiba, a enóloga portuguesa Filipa Pato, sensação do momento no mundo dos apaixonados pela bebida, chega a Porto Alegre um pouco cansada, é verdade, mas pronta para mais uma entrevista.


- Queres descansar um pouco, comer alguma coisa antes de começarmos? – pergunto, com receio de encontrar uma interlocutora pouco disposta, como é o caso de muitas famosas por aí.

- Não, não te preocupes. Almocei bem, podemos conversar. Podemos já falar dos vinhos agora mesmo – diz ela, com o semblante restabelecido por alguns goles de água e pela possibilidade de discorrer sobre sua grande paixão.

Ela sempre conviveu com uma relativa fama devido aos vinhos produzidos pelo pai, Luís Pato, posicionados muitas vezes entre os melhores de Portugal. Mas foi com seus próprios rótulos que Filipa alcançou renome internacional, especialmente depois de ser reconhecida, em 2011, como enóloga do ano pela prestigiada revista alemã Feinschmeker. A convite da importadora Porto a Porto, que revende seus rótulos por aqui, a enóloga ficou alguns dias em solo gaúcho divulgando suas criações.

A mulher moderna com ares de celebridade que espero encontrar naquela tarde, capaz de transcender os limites dos feitos do pai para brilhar sozinha no concorrido mundo do vinho, é apenas uma ilusão. Os traços marcantes do rosto, fruto dos genes portugueses, estão ali sem máscaras. Nem uma gota de maquiagem tira o foco dos olhos puxadinhos e das sobrancelhas fartas – cultivadas, é claro, longe das pinças. É pequena, veste-se com simplicidade, usa poucos acessórios. Os 37 anos escondem-se no bom humor e na pele saudável, salvo em alguns quase imperceptíveis fios de cabelo branco. Como uma metáfora de si mesma na pele da produtora de vinhos, ela é o que é, sem disfarces. Tudo o que importa está na essência, no interior da garrafa.

De cosmopolita e moderna, Filipa também tem apenas o necessário à profissão. Já viajou o mundo todo provando vinhos e, mais recentemente, divulgando seus produtos. Depois do nascimento dos filhos, Francisco, três anos, e Fernão, 11 meses, deixa a propriedade em que mora, na região da Bairrada, centro de Portugal, apenas para promover seus vinhos (o Brasil e a Inglaterra são os principais destinos) e para passar temporadas na terra do marido, a Bélgica.

Para mostrar ao mundo sua capacidade, Filipa precisou libertar-se do pai. Isso não significou, no entanto, um rompimento com tudo o que havia aprendido. Ao conhecimento adquirido pela família, que faz vinhos na Bairrada há muitas gerações, ela somou a técnica obtida no curso de engenharia química na Universidade de Coimbra e a experiência acumulada mundo afora. Estava formada assim uma das dez enólogas mais influentes de Portugal.

Apesar da aura de modernidade, tradição é o que realmente importa. Tanto que seu slogan é “Vinhos Sem Maquilhagem”. Assim como ela, o vinho que nasce de suas sensações não leva qualquer tipo de aditivo para que se estabilize. Nem os vinhedos são tratados com agrotóxicos. Depois de fermentado, passa pouco tempo estagiando em barricas de madeira.

- A madeira tem que ser usada com muita cautela, pois é a moldura do vinho. Serve apenas para realçar a arte que vem de dentro, da característica revelada pelas uvas – garante.

Morar na terra natal, preservar o velho jeito de fazer vinhos, usar castas autóctones da Bairrada como baga e bical e até batizar os filhos com nomes que, segundo ela, são clássicos caindo em desuso em Portugal revelam uma personalidade apegada a raízes, tradições. Talvez por isso os sorrisos sejam mais fartos ao comentar seu novo projeto. Recentemente, comprou uma propriedade que, na sua infância, era arrendada pela avó para plantar uvas e elaborar vinhos. Com a crise na Europa, muitos vinhedos estão sendo vendidos, para sorte de gente como Filipa.

- Ali há vinhas velhas, produzindo muito bem. Vou fazer uma reforma para acomodar as barricas no subsolo e construir uma área para degustação. Agora quero que me visitem – planeja.

Com seus rótulos comercializados em 15 países e uma produção que não ultrapassa as 150 mil garrafas por ano, Filipa quer continuar controlando o processo, garantindo a qualidade e ainda tendo tempo para os filhos. Eles, aliás, foram os sonhos que mais lhe custaram sacrifícios. Acostumada a beber, pelo menos, uma taça de vinho todos os dias, ela se viu impedida de praticar o hábito que cultivou desde muito cedo por prazer e profissão.

Às gargalhadas, ela representa o diálogo que teve com o médico na primeira consulta do pré-natal.

- Olhe, aí tem piada, veja. Fui a um médico que sabia ser apreciador de vinhos, na esperança que ele me deixasse beber só um pouco. Mas ele logo me disse:

- Não podes beber nada!

- Nada?

- Nada!

- Tive que trocar de médico!

O problema foi resolvido com uma médica belga que, sabendo da profissão de Filipa, liberou um cálice diário depois do primeiro trimestre de gravidez.

Para estar mais tempo junto às vinhas, na companhia dos filhos e do marido, Filipa viaja cada vez menos e não tem a menor intenção de expandir os negócios, cultivando uvas e fazendo vinhos em outros locais da Europa ou do mundo. Talvez com uma exceção.

- Provei um vinho que me agradou muito, feito com castas portuguesas na Campanha Gaúcha. Não conheço esta região, mas me interessa muito. Pelo que provei, talvez a Campanha fosse o único lugar do mundo em que eu pensaria em fazer vinhos fora da Bairrada. Quem sabe, não é?

Quem sabe, Filipa?

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