quinta-feira, 18 de março de 2010

All we need is just a little patience


Há tempos quero – e preciso – começar um blog que tenha o meu nome, que diga algo sobre mim mesma e sobre meu trabalho. Por isso, aproveito um velho apelido dos tempos de colégio, o “Lima-Limão” para, finalmente, extrair do campo das ideias esse arquivo-portfólio-desabafo online. E, como o blog é meu mesmo, tomo a liberdade de, logo na primeira postagem, escrever uma semi-crônica que é muito mais um arroubo de emoção do que um texto sério. Vamos abrir os trabalhos com o show do Guns n’ Roses em Porto Alegre, o último da turnê brasileira, do qual participei sem bloco, sem caneta e sem câmera. Sequer tinha pauta. Fui vestida de fã, de corpo, alma, coração e lencinho na testa.
Minha paixão por Guns começou na adolescência, quando Use Your Illusion era lançamento. Muitas vezes me imaginei num show da banda, sonhei com o momento, mas já estava desiludida. Parecia que Chinese Democracy tinha um encosto. Até que... aleluia... na tarde de 16 de março, caprichei no tênis e parti para o estacionamento da Fiergs. Não era um delírio. Finalmente ia ver minha banda preferida!
Logo na chegada, fila mais comprida que o solo de Estranged. A promessa era abrir os portões às 16h, mas o povo começou a entrar eram quase 20h. “Ceva, ceva, ceva... tá bem gelada!”, gritava a ambulante com um isopor equilibrado na cabeça. Um olhar para o lado e lá está um sósia do Slash, com a cabeleira crespa, tentando furar a fila. Olha lá... é o próprio Axl Rose – mais gorducho e baixinho, além de feio – com uma cerveja na mão. Jovens com menos de 15 anos se amontoam, excitados, para cantar com uma banda que jamais viram fazer sucesso. Quando nasceram, o Guns n’ Roses dos sonhos já estava desfeito. De repente, um vendedor grita: “Atenção... a camiseta era 25, agora é só dez real”! Na roupa, a inscrição: EU FUI. Ele não sabe que esse sentimento não cabe em uma camiseta, muito menos em dez reais.
Aos 16 anos, não teria me incomodado com o atraso. Mas, aos 33, depois de ficar de pé por mais de sete horas, a coluna reclamando, o sono batendo ao fim de um dia de trabalho, até o próprio Axl já era objeto da minha raiva. Os boatos de todos os tipos davam conta de uma tragédia iminente. “Eles ainda nem saíram do Rio de Janeiro, parece que nem vêm mais”. “O show será cancelado, estão nos enrolando”. Pelo telefone, um amigo me manda para a casa, pois tudo está perdido. Não haverá Guns.
Lá pelas tantas, a entrada do enlouquecido Sebastian Bach dissipa os maus agouros. Se o Sebastian veio, o Guns também veio. O outrora lindo de morrer vocalista do Skid Row é hoje uma caricatura do heavy metal envelhecido. Engraçadíssimo em uma roupa justa de couro, o cara gritou, correu, sacudiu o microfone, tentou falar em português e até caiu um tombo no palco molhado. Uma figura.
Sim, o Sebastian tava divertido, mas a galera queria Guns! Até que, pouco antes das 2h, a pirotecnia anunciou a entrada daqueles estranhos que fizeram figuração – e alguns solos – para que o velhinho pudesse entrar e brilhar. Ele apareceu de calça jeans e um casaco luminoso, chapéu, óculos escuros, toneladas de anéis e pulseiras e o lencinho na testa. Uns quilos a mais, é verdade, que pareciam querer romper com os botões das camisas que ele trocava freneticamente. Mas foi só isso que separou o Axl quase cinquentão daquela miragem que me hipnotizava nos clipes da MTV. Cansaço? Espera? Atraso? Que nada... I was in the jungle, baby!
As mais de duas horas que se seguiram foram de êxtase. Ele pulou, correu, dançou, fez caras e bocas e cantou à vontade, extraindo todos aqueles gritinhos impossíveis da voz grave. Dê-lhe coração saindo pela boca nos clássicos. Nem precisava dos fogos de artifício que explodiram em Live and Let Die e You Could Be Mine. O fogaréu do povo já queimava há horas...
Um dos problemas de ser mais velho é que o senso também aumenta. Não gostei de ver o guitarrista usando uma cartola e colocando o cigarro entre as cordas antes de solar, como fazia mestre Slash. Blasfêmia. Também não gostei muito das músicas novas. Não gostei do copinho de água por cinco pila, não gostei dos marmanjos sem-noção que pulavam por cima da gente. Mas quem se importa com isso quando Axl senta no piano e solta a primeira nota de November Rain, com uma olhadinha sacana para o público, com toda a cumplicidade de quem se conhece há, pelo menos, 20 anos? Ou quando, no bis, ele solta a balada romântica mais linda de todos os tempos, pedindo só mais um pouco de paciência a quem já estava ali havia uma eternidade?
Ao final da chuva de papel picado de Paradise City, a voz do marido me acorda do transe, me resgata do paraíso. “Vamos embora”, diz ele. Despertei de um sonho. Antes de dar as costas ao palco, atirei um beijo ao vento. Um beijo pro Axl, perfeito, que apesar de todo o atraso (do show, do disco) não perdeu aquela cara de sou-foda e a capacidade de encantar. E um beijo pra menina adolescente deslumbrada – sweet child – que eu reencontrei lá no meio da galera, da qual às vezes me perco nessa vidinha de adulta.

8 comentários:

  1. Bueno, já estou acostumado com esses textos maravilhosos que escreves e agora mais uma vez me emocionei. Apesar de ter sido eu o carrasco que te acordou do sonho, o velhinho que nunca foi muito metaleiro, apesar das longas madeixas da juventude, estava acabado as 4:00h da manhã. hehehe
    Sucesso no blog meu amor!!!

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  2. Aaaahhhh, sua sequelada, finalmente fizeste o teu! Bem-vinda ao universo dos blogueiros. E vê se atualiza sempre, né istopor?

    Beijos da tua amiga-irmã.

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  3. Aeeee, agora sim, quero muito participar de muitas histórias que virão, e mais ainda dos devaneios.
    Parabéns limaelimão.
    Beijos
    Miguelina v3.0

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  4. Uhuuuuuuuuuuuu
    "não perdeu aquela cara de sou-foda" foi a minha frase preferida.
    Sucesso Pati!!
    Beijos

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  5. Pasta, minha prima. Chorei lendo teu texto...também resgatei a sweet child daquela época, que compartilhamos com tanta euforia. Não fui ao show aqui...fazer o que?...mas de alguma maneira me senti representada. Por ti!
    Saudades
    Beijos

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  6. Amei. Eu que sempre leio tudo "por cima", li todas as palavras. Você é phoda, guria!

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